Foto rara mostra lenda do reggae Jimmy Cliff em show histórico em Roraima: 'Era grande, mas simples'
29/11/2025
(Foto: Reprodução) Foto rara mostra a lenda do reggae Jimmy Cliff cantando no Ginásio Canarinho em 1991
Arquivo Pessoal/Marinho da Luz
O público roraimense à loucura, um bingo e... um astro internacional do reggae? É difícil de acreditar. Mas isso aconteceu e está presente na memória e na história de quem viveu Roraima nos anos 1990. A lenda jamaicana Jimmy Cliff cantou para uma multidão apaixonada em um show histórico no Ginásio Canarinho, em Boa Vista. O g1 teve acesso a um dos raros registros que existem além da memória: uma foto, com o astro dançando no palco de madeira.
O show aconteceu no dia 6 de outubro de 1991 em um evento promovido pelo Sindicato dos Taxistas, logo após um bingo com prêmios. Não havia celulares, câmeras digitais ou filmadoras portáteis na época. Por isso, registros do momento são raros de encontrar -- quem curtiu o show, realmente curtiu o momento.
A imagem, tingida pelas luzes avermelhadas do palco e com textura típica de fotografia analógica, mostra Jimmy Cliff sorrindo, dançando com os braços, com energia e vestindo um traje característico, colorido, com detalhes que remetem à estética jamaicana.
A foto é do acervo pessoal do percussionista Marinho da Luz, de 56 anos, que -- à época com 22 anos -- tocou em uma das bandas que abriu o show de Cliff e pôde ver o astro do palco. O registro foi feito com uma câmera analógica emprestada de um amigo. Câmeras analógicas precisam que o filme seja revelado após tirar a foto. (veja acima).
O show estava abarrotado. Era Jimmy Cliff, a lenda! Lotou de cabo a rabo aquele ginásio, relembra Marinho.
🎤 Jimmy Cliff, lenda do reggae, morreu aos 81 anos, na segunda-feira (24). De acordo com um comunicado divulgado pela mulher do cantor, Latifa, o músico sofreu uma convulsão seguida de pneumonia.
🎸Ele é considerado um dos pioneiros do reggae e responsável por levar o gênero ao cenário internacional. O músico jamaicano ganhou dois Grammy com os álbuns Cliff Hanger (1985) e Rebirth (2012) – esse último também apareceu na lista dos “50 Melhores Álbuns de 2012” da Rolling Stone.
O show aconteceu em um momento que Cliff morava no Brasil. O artista tinha fortes relações com a Bahia: morou em Salvador, fez shows com Gilberto Gil, gravou com Margareth Menezes, Olodum e Ara Ketu, posou com a camisa do Bahia e teve uma filha em Salvador, a cantora e atriz Nabiyah Be.
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Marinho conta que o palco foi montado com tábuas de madeira. O mastro de bandeiras do estádio aparece ao lado do cantor, reforçando o improviso daquela noite — e a grandiosidade do momento.
Na foto, é possível ver instrumentos de percussão, cabos, estruturas metálicas e parte do público que cercava o palco improvisado, elevado com tábuas de madeira.
A banda de Marinho fez o show de abertura e também o pós-show de Cliff. Ele destaca a forte comunidade maranhense que vive em Roraima e esteve em peso no show, afinal, São Luís do Maranhão é a capital nacional do reggae.
“Nós ficamos a metros dele, sentindo a vibração da banda, do público, do som. Não tinha ninguém tirando foto, ninguém filmando. Era para viver. A gente tocou antes, depois esperou, acompanhou. Eu tinha umas duas ou três fotos dessa noite, mas o tempo levou. Só sobrou essa e ainda bem que sobrou.
A comunidade maranhense, que sempre amou reggae, estava inteira lá. Nunca vi o Canarinho como vi naquele dia. Quem viveu, viveu pra contar”, relembra o músico.
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Outro músico que também participou de um dos shows que abriram para Cliff foi Sousa Filho, hoje com 58 anos. Maranhense, ele havia se mudado há pouco tempo para Boa Vista. À época com 24 anos, tocou guitarra antes da lenda do reggae.
“Eu escutava Jimmy Cliff desde menino, lá no Maranhão. Era aquele sonho distante, inalcançável. Quando disseram que eu ia tocar antes dele, eu tremia. A gente ensaiava com medo de errar, medo de ser pequeno demais para um artista tão grande.
O estádio estava lotado de um jeito que eu nunca tinha visto. Era tanta gente que eu nem lembro se toquei certo”, relembra o músico que também assistiu a apresentação de Cliff no palco.
Ele diz que a memória mais viva não é do que tocou, mas do que sentiu quando o cantor subiu ao palco. De acordo com Sousa, tinha gente que não conseguiu entrar no estádio e precisou apenas ouvir o show de fora.
“Quando ele apareceu, o estádio virou mar. Gente gritando, cantando, chorando, subindo em grade, em ombro, em arquibancada. Eu vi tudo de cima do palco, a poucos metros dele. E parecia mentira.
Sousa relembra que o músico tentou encerrar o show três vezes — mas não conseguia, pois o público implorava por mais. Em um dos momentos mais emocionantes, Cliff voltou para o palco apenas com o tecladista e tocou a música Peace, que na época era sucesso por ser trilha sonora da novela Felicidade, de Manoel Carlos.
Dizia tchau, virava as costas, e o público não ia embora. Parecia que ninguém aceitava que acabou. Quando as luzes quase apagaram, o tecladista puxou ‘Peace’, sozinho. Aí o estádio explodiu. Todo mundo voltou correndo, gritando, chorando, cantando”, relembra.
'Eu cobri do palco. Ele era grande, mas simples'
A jornalista Consuelo Oliveira, hoje com 65 anos, tinha 31 anos, também estava ali cobrindo o evento pela Rede Amazônica (que à época se chamava TV Roraima). Ela não tem imagens, mas tem lembranças que nenhum arquivo poderia substituir.
Consuelo inclusive chegou a entrevistar Cliff no hotel, antes do show. Algo que a jornalista relembra como uma honra.
Você imagina a emoção bem pertinho dele, da banda, e vendo o público delirando, foi assim, uma coisa inesquecível, uma multidão mesmo, fantástico. Um dos pontos altos da minha carreira jornalística.
Ela diz que o que mais marcou naquele dia não foi apenas o show, mas a pessoa por trás da lenda.
Se eu pudesse definir, seria isso: a simplicidade. Ele é um grande astro, né? Uma figura da dimensão dele, mas ele tinha uma simplicidade, atendeu a gente com uma tamanha gentileza, boa vontade, e também simplicidade na forma de olhar o mundo, de descomplicar as coisas, nas mensagens que ele deixava.
Mesmo sem imagens, ela afirma que nada apaga o que viveu naquela noite, do hotel ao palco, do microfone à multidão.
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