Mesmo banquete, objetivos diferentes: como Xi Jinping tratou Trump e Putin em Pequim
24/05/2026
(Foto: Reprodução) Putin e Xi se encontram em Pequim dias após visita de Trump à China
Na superfície, as reuniões do líder chinês Xi Jinping com o presidente dos EUA, Donald Trump, e com o presidente da Rússia, Vladimir Putin, pareceram bastante semelhantes.
Elas ocorreram com dias de diferença e foram celebradas com apertos de mão formais na Praça Tiananmen, em Pequim, saudações entusiasmadas de crianças acenando com flores e colunas de soldados marchando com baionetas reluzentes. Mas as visitas também revelaram o quão diferente é a relação da China com os dois países.
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Durante a visita de Trump, a China buscou estabilizar os laços com os Estados Unidos, enquanto a viagem de Putin serviu para aprofundar sua parceria estratégica com a Rússia.
Xi enfatizou a hospitalidade cerimonial durante a visita de Trump, incluindo um raro passeio por Zhongnanhai, um antigo jardim imperial que agora serve como sede da cúpula do governo chinês.
Pequim entendeu que Trump valorizava demonstrações públicas de respeito, disse George Chen, sócio da área de Grande China do The Asia Group: "Xi sabe que é isso que Trump valoriza: ser tratado como um VIP, respeitado diante das câmeras".
O presidente dos EUA, Donald Trump (à esquerda), posa para fotos com o presidente da China, Xi Jinping, durante uma visita ao Jardim Zhongnanhai, em Pequim, em 15 de maio de 2026.
Evan Vucci / Pool / AFP
Com Putin, disse Chen, Xi passou a focar na substância. "Reafirmando o tratado de amizade, assinando novos acordos energéticos e reforçando a parceria 'sem limites'", acrescentou.
Duração e quantidade de visitas
As semelhanças e os contrastes começaram com a agenda e duração da visita: o presidente dos EUA permaneceu na China por três dias, enquanto Putin ficou dois dias.
Ambos os líderes foram recebidos na Praça Tiananmen com guardas cerimoniais, uma banda militar e crianças acenando bandeiras.
O presidente russo Vladimir Putin e o presidente chinês Xi Jinping inspecionam a guarda de honra durante uma cerimônia de boas-vindas no Grande Salão do Povo, em Pequim.
Maxim Shemetov/Pool/Reuters
Ambos também realizaram reuniões a portas fechadas com Xi no Grande Salão do Povo, ao lado da praça.
Trump também fez um tour privado pelo Templo do Céu e caminhou pelos jardins imperiais de Zhongnanhai.
Putin, por sua vez, passou grande parte do tempo com Xi dentro do Grande Salão do Povo, onde os dois presidentes visitaram uma exposição de fotos sobre as relações China-Rússia e, mais tarde, tomaram chá.
A viagem da semana passada foi a segunda visita de Trump à China como presidente. Para Putin, foi a sua 25ª visita ao país.
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Divisão clara nas mensagens
O principal contraste entre as duas cúpulas foi a mensagem transmitida.
Com Trump, Xi focou na necessidade de manter uma relação relativamente estável após meses de tensões e uma guerra comercial entre as duas maiores economias do mundo. Ele instou o presidente americano a enxergar a China como uma parceira, e não como uma rival, e ambos os líderes concordaram em trabalhar em prol do que descreveram como “uma relação construtiva China-EUA de estabilidade estratégica”.
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Com Putin, Xi buscou reforçar e aprofundar uma parceria de longa data, importante tanto estratégica quanto economicamente para os dois países.
Embora os EUA e a China ainda estejam tentando estabilizar suas relações comerciais, Moscou e Pequim reafirmaram seu relacionamento como parceiros essenciais. Putin afirmou que a “força motriz” da relação era o setor energético, particularmente o petróleo e o gás.
Xi assinou acordos com apenas um dos presidentes
China e Rússia firmaram mais de 40 acordos de cooperação, abrangendo áreas como comércio, tecnologia e intercâmbio de mídia. Os dois líderes também assinaram uma declaração conjunta descrevendo a Rússia e a China como "importantes centros de poder em um mundo multipolar".
Trump e Xi, por outro lado, não assinaram uma declaração conjunta nem supervisionaram publicamente a assinatura de quaisquer acordos durante a visita.
Foi somente após a saída do presidente americano de Pequim que os dois países anunciaram os detalhes de vários acordos, com Washington afirmando que a China concordou em comprar produtos agrícolas americanos a uma taxa anualizada de US$ 17 bilhões e adquirir 200 jatos Boeing.
“A China e a Rússia firmaram mais acordos, e com a China e os EUA, quais são os acordos? Nem isso está muito claro”, disse Claus Soong, analista do Instituto Mercator para Estudos da China, em Berlim.
Mas Lyle Morris, pesquisador sênior em segurança nacional chinesa e política externa do Centro de Análise da China do Asia Society Policy Institute, disse que a maior surpresa dos encontros entre Xi e Putin foi a aparente ausência de um acordo formal para o projeto do gasoduto Força da Sibéria 2, que poderia transportar gás da Rússia para a China através da Mongólia.
“Este é um grande revés para a Rússia e para Putin”, disse ele.
Putin e Trump têm posições diferentes sobre Taiwan
Moscou está alinhada com Pequim na questão de Taiwan, a ilha democrática que a China reivindica como sua. Enquanto isso, os EUA mantêm uma postura intencionalmente ambígua em relação à ilha e atuam como seu principal apoiador informal e fornecedor de armas.
Xi deixou claro para Trump que Taiwan é a questão mais importante na relação bilateral e alertou que o mau gerenciamento das relações dos EUA com a ilha autogovernada poderia levar a um confronto entre os dois países.
Trump não mencionou Taiwan publicamente durante a visita. Mas, em seu retorno aos Estados Unidos, descreveu a venda de armas para Taiwan como uma “ótima moeda de troca” com a China, comentários que geraram ansiedade na ilha.
Com Putin, não houve sinal de discordância sobre o assunto.
Na declaração conjunta assinada por Xi e Putin, a Rússia reiterou sua oposição à independência de Taiwan "em qualquer forma" e manifestou apoio ao que descreveu como os esforços da China para defender sua soberania e alcançar a "unificação nacional".
Segundo o Ministério das Relações Exteriores da China, ambos os lados também expressaram preocupação com o que chamaram de "remilitarização acelerada" do Japão, em um contexto de tensas relações sino-japonesas devido a Taiwan.