A vingança de Trump: presidente usa as primárias para punir e afastar republicanos que considera desleais
Há cinco anos, o senador republicano Bill Cassidy votou pela condenação de Donald Trump em seu segundo impeachment, pelo ataque de simpatizantes ao Capitólio.
A vingança do presidente a quem o desafia se concretizou neste fim de semana, quando o republicano de Louisiana foi derrotado nas primárias do partido no estado e tornou-se o primeiro senador, em uma década, a perder a indicação de conquistar mais um mandato.
O resultado disse tudo sobre o domínio que Trump exerce sobre o partido. O presidente correu para as redes sociais e festejou a revanche. “Sua deslealdade ao homem que o elegeu agora faz parte da lenda, e é bom ver que sua carreira política ACABOU!”, escreveu sobre Cassidy.
A candidata apoiada pelo presidente para o Senado, a deputada Julia Letlow, disputará o segundo turno das primárias no próximo mês, com Jim Flemming, tesoureiro de Louisiana. A previsão é que o estado conservador eleja novamente em novembro um republicano para o Senado.
Fora da disputa para concorrer ao terceiro mandato, restou ao derrotado Cassidy, enviar um recado bem dado a Trump: “Quando você participa da democracia, às vezes as coisas não saem como você quer. Mas você não faz birra. Você não reclama. Você não alega que a eleição foi roubada.”
Para Trump, a punição de seus detratores pode demorar, mas invariavelmente chega, por meio de uma campanha intensa para destituí-los, seja por insultos nas redes sociais ou pelo apoio a candidatos considerados leais.
Apenas dois dos seis senadores republicanos que votaram pela condenação do presidente no impeachment de 2021 ainda permanecem no cargo. Da bancada na Câmara, restaram somente dois dos dez que foram contrários a ele.
Sem citar o nome do presidente, ao reconhecer a derrota nas primárias, o senador Cassidy não economizou críticas: “Deixe-me esclarecer uma coisa: nosso país não gira em torno de um único indivíduo.
Trata-se do bem-estar de todos os americanos e da nossa Constituição. E se alguém não entende isso e tenta controlar os outros usando o poder, essa pessoa está pensando apenas em si mesma. Não está pensando em servir a todos nós. E essa pessoa não está qualificada para ser um líder.”
Os republicanos enfrentam dificuldades para manter o controle das duas casas do Congresso nas eleições de dezembro, e Trump está às voltas com a persistente queda de popularidade, atribuída à guerra no Irã e ao aumento do custo de vida.
Ainda assim, a sua caça aos infiéis, para imprimir neles a derrota política, costuma ser implacável. O presidente conseguiu destituir cinco senadores estaduais em Indiana que se opuseram a ele no redesenho dos distritos eleitorais do estado.
Quem enfrenta Trump, atrai a sua ira e acaba defenestrado. O próximo alvo é o congressista Thomas Massie, que disputa nesta terça-feira com Ed Gallrein, aliado do presidente, as primárias no Kentucky.
No sétimo mandato, o deputado Massie destaca-se como o principal opositor de Trump na bancada republicana na Câmara.
Caiu em desgraça por frequentes desafios ao presidente: votou contra um projeto de lei tributária apoiado por Trump, exerceu pressão entre os colegas para a divulgação dos arquivos relacionados ao criminoso sexual Jeffrey Epstein, na direção contrária à da Casa Branca, e se opôs à guerra contra o Irã.
Após derrotar o senador Cassidy, Trump voltou suas baterias contra o detrator Massie, classificando-o como o pior congressista republicano da história, e discorrendo o palavrório descortês ao correligionário. “Kentucky, vote para tirar esse vagabundo do poder nesta terça-feira. Não podemos conviver com esse encrenqueiro por mais dois anos.”
Massie atribuiu o apelo de Trump em favor do adversário Gallrein, fazendeiro e ex-SEAL, ao desespero e acredita que será beneficiado pela campanha incisiva de Trump contra ele. “Sou o único que eles não conseguem intimidar. O presidente está perdendo o sono e tuitando sobre isso”, disse em entrevista à ABC.
As pesquisas, no entanto, o colocam atrás de Gallrein, o candidato de Trump, com cinco pontos de diferença. A primária republicana de Kentucky virou um teste de resistência entre Massie, para conseguir sobreviver a mais um desejo de vingança do presidente, e Trump, para manter o controle absoluto sobre seu partido.FONTE: https://g1.globo.com/mundo/blog/sandra-cohen/post/2026/05/18/a-vinganca-de-trump-presidente-usa-as-primarias-para-punir-e-afastar-republicanos-que-considera-desleais.ghtml