Após conseguir vaga, mãe relata angústia com pausa nas terapias da filha no Teamarr: 'Não aceito que tirem isso dela'
07/07/2026
(Foto: Reprodução) Mãe de menina atendida pelo Teamar relata quais são as principais demandas do grupo
Urbelande dos Prazeres, mãe de uma menina com autismo de 4 anos, relata preocupação com a interrupção das terapias da filha após o esvaziamento de servidores e materiais no Centro de Acolhimento ao Autista (Teamarr), programa da Assembleia Legislativa de Roraima (Ale-RR).
A Ale-RR afirma que o programa passa por uma reorganização administrativa e deve retomar as atividades no dia 27 de julho. Urbelane, no entanto, teme que a suspensão das terapias faça a filha perder habilidades que começou a desenvolver nos últimos dois meses, desde que conseguiu uma vaga após quase um ano de espera.
A mãe afirma não ter sido avisada que o programa entraria recesso, como a Ale-RR tem divulgado. Com a interrupção dos atendimentos sem aviso prévio, a preocupação dela é com a rotina de terapias.
"Depois de quase um ano foi que finalmente consegui que a minha filha tivesse atendimento e começasse a se desenvolver para que tenha uma expectativa de vida melhor . E isso foi tirado drasticamente. Hoje ela passou a manhã inteira perguntando que horas iria ver a tia da terapia. Foi difícil ela aceitar o novo e agora vai retroceder", destacou.
O receio dela é que o desenvolvimento seja comprometimento. Em razão das terapias, a mãe conta que a filha passou a socializar. A menina também tem hérnia diafragmática congênita (uma condição em que partes do abdômen, como intestinos ou estômago, se movem para dentro do peito através de uma abertura no diafragma) e antes a rotina era apenas de casa para o hospital.
"Foi tão difícil conseguir que a minha filha socializasse, sem poder ir em uma praça ou shopping. O único lugar que teve o cuidado que ela precisa foi no Teamarr. Não aceito que tirem isso dela. Hoje ela canta, se interessa por diversas cores. Ela já fala com as pessoas, sendo que ela mal olhava nos olhos", desabafou.
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'Está tão mais desenvolvida'
Maya faz terapias há dois meses no Teamar e a mãe conta que o acompanhamento da filha ocorre toda semana. Por ter imunidade baixa, a criança frequentava horário para resguardo, dentro de uma área exclusiva, para que não houvesse contaminação. Uberlane conta que o tratamento ajudou a filha se desenvolver.
"Ela está tão mais desenvolvida, tanto que toda segunda-feira ela já sabe que vai ter o atendimento, que até pergunta ' mamãe tá na hora de ir para a terapía'".
A mãe ficou sabendo da paralisação pelas redes sociais, com a reportagem do g1 que denunciou o esvaziamento da sede do Teamar, após a ida do presidente da Assembleia, Jorge Everton (União Brasil) ao local.
No dia 24 de junho, dois dias após o ex-presidente da Assembleia, Soldado Sampaio (Republicanos), perder as eleições suplementares para governo de Roraima, o deputado Jorge Everton assinou um decreto exonerando todos os servidores comissionados.
Com a exoneração em massa, os profissionais que cuidavam das crianças com autismo também tiveram que deixar o cargo. Entretanto, o vínculo entre o paciente e o terapeuta é fundamental para o tratamento.
"Eu vejo que é por questão de briga política. Por que as nossas crianças devem pagar por isso? As nossas crianças estão sendo punidas! Por que não exoneram as pessoas que só vão assinar a frequência todo final de mês, sendo que eles [terapeutas] estão lá trabalhando. Pegou todo mundo de surpresa e depois vão para a mídia querer distorcer", afirmou.
Uberlande Praseres, mãe de uma criança com autismo de 4 anos
Tiago Côrtes/g1RR
O que aconteceu?
A saída de servidores e a retirada de materiais usados no atendimento a crianças e adolescentes ocorreu nesta segunda-feira (6), após ida de uma comitiva liderada pelo presidente da Ale-RR ao local e anunciar mudança na gestão do programa. A medida ocorreu dias após a exoneração dos servidores comissionados da Casa. Eles deixaram o prédio e retiraram materiais usados nos atendimentos.
Procurada, a Ale-RR não respondeu sobre as atividades realizadas no prédio, sobre a restrição de entrada e o que está sendo dito aos pais sobre a continuidade nos atendimentos até a última atualização desta reportagem.
Ao menos 750 famílias são atendidas gratuitamente pelo Teamarr, o que corresponde a mais de mil crianças e adolescentes beneficiados. Criada em 2022, a iniciativa oferta terapias e acompanhamento contínuo para pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no estado.
Na tarde desta segunda-feira (6), mães de pacientes atendidos pelo Teamarr protestaram em frente à Ale-RR contra as mudanças. Elas afirmam que a interrupção dos serviços compromete o tratamento dos filhos, que já criaram vínculo com os terapeutas.
Porta do prédio do Teamarr, no bairro São Francisco, estava trancada e com acesso restrito nesta terça (7).
g1 RR
Porta trancada
Nesta terça-feira (7), a reportagem encontrou a unidade trancada. Apenas um segurança atendeu a equipe e informou que a entrada não estava autorizada.
O g1 telefonou para o número pessoal da Superintendente de Programas Especiais da Ale-RR, Marília Pinto. Uma mulher identificada apenas como "Maria", que se apresentou como "diretora", atendeu a ligação.
Ela afirmou que o programa cumpre um recesso de férias escolares. Inicialmente, também negou a realização de obras no local. Sobre a presença de carros de refrigeração e construtoras do lado de fora, a servidora mudou a versão. Ela confirmou que uma arquiteta realiza adequações nas salas.
O g1 apurou que os servidores, que seguem exonerados, não haviam sido informados sobre a possibilidade de haver obras durante o recesso escolar deste ano.
Questionada sobre a proibição da entrada da imprensa em um prédio público, a diretora sugeriu um pedido formal de autorização à comunicação da Assembleia. Em seguida, encerrou a ligação.
Centro de acolhimento a autistas é esvaziado após presidente da Assembleia ir ao prédio
Mães cobraram explicações sobre funcionamento do Teamarr em frente a Assembleia Legislativa de Roraima
Tiago Côrtes/g1 RR
Reunião com superintendente
Durante o protesto das mães na segunda-feira, a superintendente Marília Pinto organizou uma reunião e chamou o grupo ao plenário. Pressionada sobre quem deu a ordem para esvaziar o prédio, ela afirmou que a ordem não foi do presidente da Casa, mas não informou de quem foi.
"Houve uma determinação que não foi do deputado Jorge Everton de que todos os servidores pegassem os seus objetos pessoais e saíssem. A determinação veio de alguém, mas não foi do deputado", disse Marília, sem identificar de quem foi a ordem.
Sobre os materiais retirados do Centro, a médica afirmou que a decisão partiu dos próprios funcionários. "Se os equipamentos são pessoais, aqueles servidores que entenderam que não iriam permanecer levaram os seus materiais", justificou.
Em nota à Rede Amazônica, a Ale-RR informou que realiza "levantamento patrimonial" dos bens que estavam à disposição do programa, e que somente após esse estudo, será possível identificar quais itens pertencem ao patrimônio público e quais são de propriedade particular.
A superintendente garantiu o retorno das atividades para o dia 27 de julho. Ela também defendeu que a Ale-RR pretende recontratar os servidores exonerados. "Em nenhum momento ele [Jorge Everton] disse que as pessoas que estão aqui não participarão mais. Ele entende a importância e o vínculo que esses servidores têm", declarou.
Responsável pelo Teamarr até então, a deputada Angela Águida Portella (PP) disse em nota ter sido surpreendida com a mudança. Marília Pinto destacou que a comitiva que esteve no prédio foi "apenas conhecer o fluxo". Procurado, o presidente da Casa não respondeu aos questionamentos do g1 até a última atualização desta reportagem.
Materiais usados no atendimento de crianças e adolescentes com autismo foram retirados do prédio
Lucimar Sobral/g1 RR
Salas esvaziadas
O g1 acompanhou parte da desocupação do prédio nesta segunda e registrou quando profissionais esvaziaram salas, armários, retiraram brinquedos, materiais lúdicos e equipamentos utilizados nos atendimentos. Nenhum servidor que estava no local quis falar com a reportagem.
A reportagem apurou que a equipe do presidente chegou por volta das 8h e informou que haveria uma mudança na gestão do Centro e que por isso todos os exonerados deveriam se retirar com os materiais. Policiais militares que atuam na Ale-RR acompanharam a ação.
Em nota, a Ale-RR negou que a iniciativa de esvaziar a unidade tenha partido direto do presidente e atribuiu à uma "determinação foi adotada pela deputada Ângela Portella" (leia a nota na íntegra da reportagem). Procurada, Ângela não se manifestou sobre a nota enviada pela assessoria de Jorge Everton.
A Casa afirmou ainda que houve um planejamento previamente definido e que o programa entra em recesso nesta segunda, em razão do período de férias escolares. "Nesse mesmo intervalo, será realizada uma reorganização do programada na unidade, com duração aproximada de 20 dias, visando melhorar a estrutura e oferecer ainda mais qualidade no atendimento".
Durante a desocupação, servidores recolheram pertences pessoais e materiais utilizados nos atendimentos que haviam sido adquiridos por eles mesmos para auxiliar nas atividades no Centro. Muitos dos produtos foram colocados em sacos de lixo.
A mãe de um paciente atendido chorou ao chegar na unidade durante a retirada dos equipamentos. A deputada Angella esteve na unidade local durante a desocupação, mas não quis falar sobre o assunto.
Nota da íntegra da Ale-RR
"A Assembleia Legislativa de Roraima esclarece que são improcedentes as alegações de que haja qualquer iniciativa para esvaziar, encerrar ou prejudicar o funcionamento do Programa TEAMARR.
O TEAMARR é um programa institucional da Assembleia Legislativa, criado para oferecer atendimento especializado a crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e apoio às suas famílias. Trata-se de uma política pública consolidada, que representa uma das maiores iniciativas do Estado voltadas a esse público.
Conforme planejamento previamente definido, o programa entra em recesso nesta segunda-feira, dia 6 de julho, em razão do período de férias escolares. Nesse mesmo intervalo, será realizada uma reorganização programada na unidade, com duração aproximada de 20 dias, visando melhorar a estrutura e oferecer ainda mais qualidade no atendimento.
A Assembleia também esclarece que a orientação para a retirada de servidores, objetos e equipamentos das dependências da unidade não partiu da Presidência da Casa. Essa determinação foi adotada pela deputada Ângela Portella e o presidente da Assembleia, Jorge Everton, esteve no local para averiguar pessoalmente a situação.
O compromisso da Assembleia Legislativa permanece o mesmo: assegurar a continuidade e o fortalecimento do TEAMARR.
Atualmente, o TEAMARR atende cerca de 1400 crianças e adolescentes em duas unidades, no bairro São Francisco e no Jardim Tropical.
A Assembleia Legislativa lamenta que informações sem fundamento gerem insegurança entre as famílias atendidas por um programa de tamanha relevância social. O compromisso da instituição é com a continuidade dos serviços, a transparência e o cuidado com quem depende desse atendimento."
Nota na íntegra Ângella Águida Portella
"Na manhã de hoje, fui surpreendida com uma ligação informando que havia uma comitiva da Assembleia Legislativa de Roraima no TEAMARR. Imediatamente, dirigi-me à unidade do Bairro São Francisco, onde fui comunicada que o Centro de Atendimento ao Autista passaria a ter uma nova administração.
O TEAMARR é muito mais do que uma política pública. Ele nasceu de um propósito de vida, da minha experiência enquanto avó de uma criança autista com nível 3 de suporte. Assim nasceu meu compromisso de transformar essa vivência em acolhimento para outras famílias atendidas no programa Teamarr, que hoje é uma referência nacional de atendimento.
O autismo nunca foi apenas uma bandeira. É uma missão de vida. E não medirei esforços para que a pauta seja tratada com responsabilidade e prioridade e não com uma mera disputa política eleitoral.
Ao longo dessa trajetória, expandimos o projeto para duas unidades e oferecemos muito mais do que atendimentos especializados: construímos um espaço de acolhimento, orientação, respeito e esperança às famílias.
Esclareço ainda que boa parte dos materiais utilizados diariamente no atendimento às crianças, adolescentes e às famílias pertencem aos próprios colaboradores. Com a saída dos servidores foi necessária a devolução desses itens. Neste momento, reafirmo compromisso com as inúmeras famílias que confiam e acreditam em nosso trabalho. Estou buscando alternativas para em breve podermos continuar nosso trabalho."
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