Após enchentes, comerciantes de Juiz de Fora se reinventam para recomeçar
31/10/2026
(Foto: Reprodução) Mounira Haddad Rahme, de 88 anos, já enfrentou outras enchentes e usa conselho do avô para não desanimar
Mariana Souza/g1
“A enchente continua a produzir damnos incalculaveis.” A frase, publicada pelo jornal O Pharol, descreve o cenário vivido em Juiz de Fora, em 1906.
No decorrer desses 120 anos, a cidade enfrentou outras tragédias causadas pelas chuvas, a mais recente, em fevereiro de 2026. De tempos em tempos, a água invade ruas e lojas, obrigando o comércio, principal setor empregador da cidade, a se reinventar.
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Apesar das perdas e do sentimento de tristeza pelo impacto direto nas vendas, os comerciantes mantém pensamento otimista. “Como uma fênix, o ser humano é assim: sempre busca uma forma de se reerguer melhor e mais forte. Não é fácil, mas vamos conseguir”, afirma Ive Cristina de Assis, que também precisou reconstruir o negócio após a tragédia climática.
Na rua Floriano Peixoto, onde fica a franquia de tintas dela e do marido, passado e presente se encontram. Citada pelo jornal O Pharol entre os pontos alagados em 1906, a via voltou a ter o comércio invadido pela água neste ano.
Proprietária de uma loja de tecidos quase centenária, Mounira Haddad Rahme, de 88 anos, também conhece bem o encontro dos panos com a água que ultrapassa o asfalto. Em 1940, diante do estoque encharcado, os familiares caíram no choro.
Foi quando Gattas Bara, comerciante da mesma rua, trouxe uma saída: “Levanta, abre essa porta, anuncia que vão vender pano molhado" A liquidação atraiu clientes, esgotou os tecidos e garantiu dinheiro para renovar o estoque. Anos depois, outra enchente levou a família a repetir a estratégia.
A comerciante, que hoje vê filhos e neto darem continuidade ao negócio, carrega até hoje o conselho que recebeu do avô:
“Não desanima, não. Não desanima. Porque, nessa vida, tudo passa. O bom passa e o ruim passa."
Reinventar para continuar
Segundo o Sindicato do Comércio de Juiz de Fora (Sindicomércio - JF), a parte baixa do Centro foi a região comercial mais atingida da cidade. Os impactos neste ano se ramificaram, atingindo também outros pontos como Linhares, Grajaú e Vitorino Braga, na Zona Leste; Santa Luzia, na Zona Sul; e Bairro Industrial, na região Norte.
Na Floriano, três equipamentos de R$ 22 mil cada boiaram dentro da loja de Ive e do marido Márcio Menon de Almeida. Em Ubá, outra unidade do casal, que era recém-inaugurada, foi devastada. Segundo eles, os prejuízos chegaram a quase R$ 300 mil em Juiz de Fora e R$ 800 mil em Ubá.
Ive e Márcio passaram a vender tintas por encomenda após perderem estoque
Mariana Souza/g1
Sem estoque, o casal encontrou nos clientes uma saída: vender por encomenda, prática mais comum no atacado do que no varejo de tintas.
Na primeira semana, ninguém aceitou esperar pela entrega. Na terceira, a estratégia já funcionava e, segundo Márcio, ajudou a elevar o faturamento em cerca de 20%.
“Quem sustentou a loja, ou quem manteve e mantém até hoje, foram os clientes."
A mudança também veio dos consumidores. Antes interessados principalmente nas cores, muitos passaram a procurar produtos contra infiltrações e danos de novas enchentes. Para proteger o próprio negócio, o casal decidiu mudar para um imóvel mais alto, na mesma Rua Floriano Peixoto, onde pretende instalar comportas contra a entrada da água.
O peso de recomeçar
Nem todos, porém, conseguem olhar para o futuro com a mesma confiança. Na Avenida Garibaldi Campinhos, no Vitorino Braga, José Joaquim Gama da Silva, de 56 anos, tenta impedir que a água volte a entrar na loja de autopeças.
Após seis enchentes em 26 anos, construiu uma mureta na entrada e elevou as prateleiras depois das chuvas de fevereiro de 2026. Ele lembra que, em 2018, quase morreu afogado dentro do estabelecimento.
Comerciante impactado pela chuva de fevereiro tenta se reerguer em Juiz de Fora
Em dezembro do ano passado, na enchente que passou pelo bairro, Joaquim perdeu cerca de R$ 70 mil em mercadorias. Refez parte do estoque, mas, em fevereiro, a água voltou e levou mais de R$ 100 mil.
Hoje, trabalha como vigilante à noite para complementar a renda e permanece no mesmo endereço.
“Não consegui sair daqui porque os aluguéis estão todos caros por aí."
Após 40 anos no ramo, ele admite o cansaço de reconstruir tudo mais uma vez.
A poucos passos dali, Kátia Valéria Rios, de 64 anos, também enfrenta o desânimo. A comerciante perdeu mercadorias do brechó nas enchentes de 2017, dezembro de 2025 e fevereiro de 2026.
“Se acontecer mais uma, eu não sei se vou resistir mais uma vez, se vou conseguir levantar."
Kátia, proprietária do brechó, teme não conseguir reconstruir o negócio após uma nova inundação
Mariana Souza/g1
As mudanças de endereço não foram suficientes para escapar da água. Após atravessar a rua em busca de outro ponto, Kátia precisou mudar novamente diante do aumento do aluguel. Hoje, continua em um imóvel também sujeito a alagamentos, porque depende da renda do brechó para sobreviver.
Para seguir trabalhando, a família mantém a venda de roupas em consignação, dividindo o valor com os donos das peças. Mas as enchentes mudaram até a relação com os clientes. Agora, quem deixa mercadorias precisa assinar um termo em que a comerciante informa não se responsabilizar por perdas relacionadas a enchentes.
Investimentos e planejamento urbano
Os prejuízos causados pelas enchentes ao comércio, atacado e setor de serviços de Juiz de Fora são estimados em R$ 50 milhões, segundo Sindicomércio-JF. O levantamento ouviu 277 empresários e comerciantes entre 23 de fevereiro e 4 de março de 2026.
Os pequenos negócios, que representam 81,5% dos entrevistados, estão entre os mais vulneráveis. O comércio varejista corresponde a 75,9% da amostra. Além da perda de mercadorias, a pesquisa revela dificuldades para manter as despesas e recuperar o funcionamento dos estabelecimentos.
Principais resultados do levantamento:
60% relataram danos graves em estoques, móveis e equipamentos;
12,7% registraram danos leves e 3,6% relataram perda total ou danos estruturais;
63,6% estimaram prejuízos de até R$ 50 mil, enquanto 14,5% calcularam perdas entre R$ 50 mil e R$ 100 mil;
81,8% não tinham seguro empresarial;
83,6% funcionavam em imóveis alugados;
72,7% indicaram necessidade de crédito bancário para a recuperação.
As dificuldades financeiras também ameaçam a continuidade dos negócios. Entre os entrevistados, 40% temiam endividamento severo, 16,4% apontaram risco de fechamento e 14,5% consideravam a possibilidade de demitir funcionários.
Além dos empréstimos, os comerciantes apontaram outras necessidades, como orientação jurídica (10,9%), reforço na segurança (9,1%), limpeza e retirada de entulho (7,3%) e materiais de limpeza (5,5%). Para 65,5% dos participantes, o acesso ao crédito era o principal desafio administrativo naquele momento.
Para Emerson Beloti, presidente do Sindicomércio-JF, os prejuízos das enchentes se somam aos efeitos da pandemia e ao avanço das compras pela internet.
“Os empresários do comércio precisam ser mais que resilientes. Precisam de coragem e recursos para poderem sobreviver.”
Diante das dificuldades, Beloti defende a união do setor. “Creio que em nosso mar teremos muitas tempestades pela frente e se torna necessário andarmos juntos, como um cardume. Assim venceremos o que nos espera”, diz.
Dona de brechó perdeu mercadorias nas enchentes de 2017, dezembro de 2025 e fevereiro de 2026
Mariana Souza/g1
Para o professor da Faculdade de Economia da Universidade Federal de Juiz de Fora, Weslem Rodrigues Faria, as enchentes agravaram dificuldades já enfrentadas pelo comércio, como juros elevados e crédito caro. As interdições de ruas também afastaram clientes.
Segundo ele, a recuperação pode levar meses ou anos, o que reforça a importância de crédito emergencial com juros reduzidos.
Em Juiz de Fora, desde fevereiro, o Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG) liberou R$ 10,8 milhões em empréstimos a quase 140 pequenos negócios, principalmente do comércio e de serviços. Já o Banco do Brasil informou ter destinado cerca de R$ 55 milhões a empresas atingidas, atendendo entre 60 e 70 clientes. A Caixa Econômica Federal não forneceu os dados solicitados.
Os recursos são empréstimos, não indenizações pelos prejuízos. No Banco do Brasil, as empresas precisavam estar em áreas atingidas e demarcadas pela Defesa Civil para acessar a linha FGO Solidário. Os valores liberados não indicam, por si só, que os negócios tenham se recuperado.
Já para a professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Raquel von Randow, medidas individuais não substituem mudanças no planejamento urbano.
A arquiteta defende a recuperação de córregos, a redução da impermeabilização do solo e a criação de parques lineares capazes de ajudar a conter cheias.
“Reconstruir sobre essas mesmas bases é apenas repor a vulnerabilidade no mesmo lugar."
Proximidade e relação com os clientes
Em Santa Luzia, Manualdo Paulo de Jesus, de 64 anos, conserta computadores há 16 anos na Rua Ibitiguaia. Na primeira enchente, durante a noite, precisou ressarcir dois clientes pelos notebooks danificados. Desde então, mantém os equipamentos sobre o balcão e deixa apenas sucatas no chão.
Mesmo diante dos alagamentos, prefere continuar onde é conhecido. “Eu já tenho a minha clientela formada”, explica.
Manualdo passou a manter os computadores sobre o balcão para evitar novos prejuízos
Mariana Souza/g1
O mesmo apego ao endereço mantém Mônica Salgado de Albuquerque há 30 anos à frente de uma loja de queijos e congelados na Avenida dos Andradas. Ali, conquistou clientes que atravessaram décadas ao seu lado. “Só pensar em mudar daqui... Para onde? Recomeçar depois de 30 anos?”
Durante as chuvas de fevereiro, a loja chegava a fechar ao meio-dia, os clientes deixavam de aparecer e as mercadorias venciam nas prateleiras. Entre produtos perdidos e vendas que não aconteceram, Mônica estima prejuízos superiores a R$ 30 mil.
Mônica, comerciante afetada pela chuva em Juiz de Fora, passou a postar vídeos nas redes sociais e fazer entregas
Mariana Souza/TV Integração
Para continuar vendendo, a comerciante passou a divulgar produtos em vídeos nas redes sociais e fazer entregas. Também encontrou apoio nos fornecedores: alguns ampliaram os prazos de pagamento, enquanto outros ofereceram caixas de queijo.
“Já fui no fundo do poço, já voltei umas três vezes e estou aqui firme e forte."
O que a água não consegue levar
Para von Randow, a luta dos comerciantes para manter as portas abertas também ajuda a preservar a memória e os vínculos de Juiz de Fora. Mais do que movimentar a economia, esses estabelecimentos fazem parte da vida da comunidade.
“Quando um comércio local fecha, não se perde apenas um serviço. Perde-se um ponto de encontro, um local de troca, uma referência de afeto para a comunidade."
É esse sentimento que mantém comerciantes ligados aos negócios construídos ao longo de décadas. “Vale a pena pelos meus clientes, pela minha loja, pelos meus funcionários, pelos meus colaboradores”, afirma Mônica.
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*estagiária sob supervisão das editoras Juliana Netto e Gracielle Nocelli
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