Como preocupação com a violência pesa na decisão dos eleitores independentes na BA? Veja na série 'Voto Pendular', do Jornal da Globo

  • 26/08/2026
(Foto: Reprodução)
O peso da segurança pública nas eleições: série sobre voto pendular chega à Bahia A violência está no topo das maiores preocupações dos brasileiros desde janeiro de 2025, segundo a série histórica da Quaest. É esse o tema central do terceiro episódio da série especial Voto Pendular, do Jornal da Globo, que percorre os quatro maiores colégios eleitorais do país. 📱Favorite o g1 no Google e acompanhe as principais notícias do dia Desta vez, a jornalista Renata Lo Prete e Felipe Nunes, diretor da Quaest e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), desembarcam na Região Metropolitana de Salvador para entender como a insegurança aparece no cotidiano dos eleitores e se conecta a outras preocupações. A escolha da Bahia ajuda a dimensionar o problema. O estado tem a segunda maior taxa de homicídios do país, atrás apenas do Amapá, e o maior número absoluto de mortes violentas. Os dois indicadores registraram queda no último levantamento citado pela reportagem, mas permanecem elevados. Salvador aparece como a capital mais violenta do país, enquanto Simões Filho e Camaçari estão entre as 20 cidades mais perigosas do Brasil. LEIA TAMBÉM: O que pensam evangélicos do RJ indecisos nesta eleição? Série do Jornal da Globo fala com trabalhadores autônomos de SP para entender eleitores independentes A reportagem começa no Centro Histórico de Salvador, com moradores que vivem próximos à área turística do Pelourinho, e depois segue para Camaçari, onde conversa com comerciantes. Entre os entrevistados estão os músicos Ivan Santana Souza e Ivaniria Silva Sousa, a líder comunitária Sandra Regina, a costureira Narjara Barbosa Lima e os comerciantes Geraldo Kaleb, de uma loja de sapatos, Carlos Henrique de Almeida Freitas, de uma loja de construção, e Adriana Mendes, de uma loja de roupas. Infográfico - Voto pendular: série do JG mostra quem são os eleitores independentes na Bahia. Arte/g1 No Centro Histórico Salvador, Bahia Reprodução/TV Globo A primeira parada é a capital. Renata destaca que a comunidade fica a poucos quarteirões da área turística, uma das mais policiadas da capital, mas que a realidade muda à medida que se entra no trecho onde vivem os moradores do Pelourinho. A líder comunitária Sandra Regina apresenta à equipe uma antiga cozinha comunitária e explica que os moradores chamam a região onde vivem de “periferia do Centro Histórico”. “Porque a parte bonita, a parte que eles vendem para o mundo inteiro, não é a parte onde nós moramos”, afirma. Para ela, uma das principais lutas da comunidade é pela moradia. Sandra conta que os moradores têm a posse dos imóveis, mas não a propriedade, e reivindicam a regularização fundiária. “Aqui é a história viva dos nossos ancestrais, que construíram essa cidade, ajudaram a construir este país”, diz. Sandra Regina, líder comunitária, entevistada na série Voto Pendular Reprodução/TV Globo A insegurança aparece de maneira ainda mais direta no relato da costureira Narjara Barbosa Lima. Ela conta que fica acordada esperando a filha voltar do trabalho, perto das 23h. “Ela me liga quando sai do shopping e eu fico aqui contando as horas até ela chegar, porque é muito perigoso. Muito perigoso. Enquanto ela não chega, eu não consigo ficar tranquila.” Segundo Narjara, a comunidade não conta com o mesmo policiamento encontrado na parte turística. “Nós não temos policiamento nesta área. Não temos. Só na parte do turismo. A gente procura colocar grades nas portas, nas janelas, manter um cachorro dentro de casa para avisar de alguma coisa, porque segurança aqui não tem.” Ela também relata ter visto um homem correndo armado pela rua. “Meu coração parou", disse. "É violência pura. É violência. A gente não tem segurança.” Quando questionada sobre como enfrentar o problema, Narjara aponta para outra área: a educação. “A arma não vai solucionar nada. O que soluciona é a educação. Colocar as crianças na escola. (...) Quando a família não abraça, a rua abraça. E a rua abraça da pior forma.” Sandra Regina, costureira, entrevistada na série Voto Pendular Reprodução/TV Globo Para Renata, a conversa mostra que a violência não aparece de forma isolada na vida dos moradores. “A questão da violência não paira sozinha. Ela vem associada à educação, à questão da moradia. Ela perpassa a vida das pessoas", afirma. Felipe Nunes afirma que os relatos mostram como os eleitores fazem conexões entre diferentes problemas sociais e suas possíveis soluções. Música como forma de afastar jovens da violência A preocupação com crianças e adolescentes também aparece no trabalho dos músicos Ivan Santana Souza e Ivaniria Silva Sousa. Nascido e criado no Pelourinho, Ivan conta que criou um trabalho de percussão para ocupar o próprio tempo e atrair jovens da comunidade. O projeto já dura 45 anos e, para ele, o objetivo é impedir que os jovens se envolvam em "coisa errada". “A percussão ocupa a mente deles. Então eles gostam. Eu falo para eles: para tocar percussão, tem que ir para a escola, escutar pai e mãe, escutar o professor”, afirma. Ivaniria diz que trabalhar com os jovens ficou mais difícil, mas lembra que crianças que participaram das atividades conseguiram tocar em blocos e bandas e até viajar para outros países. Ivan Santana Souza e Ivaniria Silva Sousa entrevistados na série Voto Pendular Reprodução/TV Globo Para Narjara, iniciativas desse tipo deveriam ser ampliadas. “É muito importante segurança e educação para essa rapaziada de 15, 17, 13 anos. Se você tem segurança, você tem educação, respeito, é tudo junto, é um pacote.” Ela defende a criação de projetos e oficinas que ensinem atividades como costura e bordado aos moradores. Trabalho, programas sociais e o desejo de ter mais oportunidades A própria trajetória de Narjara ajuda a mostrar como o trabalho aparece nas conversas. Vendedora ambulante e costureira, ela conta com orgulho que mantém máquinas dentro de casa e produz, entre outros itens, turbantes. Durante a pandemia, quando a filha e o genro ficaram desempregados, a família passou a produzir máscaras para garantir renda. “Vamos trabalhar. Vamos fazer máscara”, lembra. “Nós vencemos. Ninguém nunca dormiu sem um café, sem um almoço, sem os alimentos das crianças, sem pagar o aluguel.” Já Sandra Regina conta que passou a vida trabalhando dentro de casa e cuidando da família e nunca teve emprego com carteira assinada. Atualmente, recebe o Bolsa Família e atua na associação de moradores e junto à população em situação de rua. “Eu não fico parada. Buscando uma ajuda para mim e para os meus, para que amanhã muitos meninos jovens daqui, muitas mães de família, não estejam passando pelo que eu passo”, afirma. Para Renata, foi a primeira etapa da série em que os programas sociais apareceram de maneira tão central nas entrevistas. Felipe destaca especialmente o Bolsa Família. Segundo ele, os depoimentos mostram que o programa é considerado importante, mas não aparece como solução para todos os problemas. “As pessoas gostam de valorizar o trabalho, o esforço, não só delas, mas da família como um todo. Então, é aquele programa que ajuda, mas que talvez não resolva tudo.” Educação e trabalho também fazem parte dos planos pessoais de Narjara. Ela conta que voltou a estudar, fez o Enem e conseguiu nota para ingressar em uma faculdade, mas teve os planos interrompidos pela pandemia. “Eu não vou desistir do meu sonho de fazer faculdade de Design de Moda. Não vou desistir. Esse é o meu sonho.” O que os moradores esperam das eleições Quando a conversa chega à política, Sandra relaciona seu voto diretamente às demandas da comunidade. “Toda eleição eu tento encontrar um candidato que comungue comigo dos meus sonhos. De ter boas escolas. De que os nossos pais de família tenham um trabalho para poder sustentar a sua família.” Ela também cita saúde, educação, moradia e o direito de ir e vir entre as políticas públicas que espera dos candidatos. Ao mesmo tempo, Sandra admite já ter se arrependido de escolhas eleitorais. “Às vezes, quando vejo uma coisa, digo: ‘Meu Deus, o que foi que eu fiz?’”, conta. Para ela, votar também significa assumir responsabilidade pela escolha. “Eu fui uma das pessoas que delegou a ele o poder de cuidar.” Sandra diz ainda que procura alternar os candidatos aos quais dá uma oportunidade. “Eu acho que o poder não pode ficar na mão de uma pessoa só.” Narjara também já se decepcionou com um candidato que ajudou a eleger. Ela conta que chegou a encontrá-lo pessoalmente depois. “Eu falei: ‘Você me decepcionou’. E dei a volta, fui embora e deixei ele lá de pé.” As diferenças entre capital e cidades menores Durante a passagem por Salvador, Renata e Felipe também discutem o comportamento eleitoral da Bahia. Renata lembra que o mesmo grupo político, o PT, governa o estado há cerca de duas décadas, mas nunca administrou Salvador. Felipe destaca que o partido costuma ter desempenho forte no Nordeste. Na Bahia, obteve pouco mais de 70% dos votos nas duas últimas eleições presidenciais. Nas capitais nordestinas, porém, o cenário é diferente: segundo Felipe, sete das nove são administradas por partidos que não pertencem ao PT ou a seus aliados. Para Nunes, isso revela uma diferença no comportamento político das cidades pequenas e médias do interior em relação às grandes regiões metropolitanas. Em Camaçari, insegurança também afeta o comércio Camaçari, Bahia Reprodução/TV Globo Para entender como a violência é percebida fora da capital, a reportagem segue para Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador. No caminho, Felipe destaca que a insegurança não é um problema exclusivo da Bahia, mas que ganha contornos mais agudos no estado. Ele também chama atenção para a presença de facções criminosas nas grandes regiões metropolitanas. Camaçari é um importante polo industrial e logístico. Segundo Felipe, especialistas em segurança pública apontam que essa infraestrutura também é disputada pelo crime organizado para o escoamento de drogas, o que aumenta a insegurança e prejudica o desenvolvimento econômico. No centro comercial da cidade, os relatos mostram o impacto desse cenário na rotina. Geraldo Kaleb, comerciante de uma loja de sapatos, diz que Camaçari passou por grandes transformações, mas que atualmente os comerciantes convivem com uma sensação constante de insegurança. “A gente vive assustado. A gente trabalha com dois celulares. O celularzinho do ladrão. Tem que ter, senão você perde a vida. A gente não se sente seguro.” Geraldo Kaleb entrevistado na série Voto Pendular Reprodução/TV Globo Carlos Henrique Freitas, comerciante em uma loja de construção, afirma que a violência chegou a alterar os horários do comércio. Segundo ele, as lojas costumavam abrir por volta das 7h. Hoje, muitas começam a funcionar às 8h, 8h30 ou 9h e encerram as atividades às 18h devido à falta de segurança nas ruas. Carlos Henrique Freitas entrevistado na série Voto Pendular Reprodução/TV Globo Adriana Mendes, comerciante em uma loja de roupas, também sente o impacto da insegurança como comerciante, mulher e mãe. “O que preocupa, para mim particularmente, que sou comerciante, é a questão de assaltos. Como mulher, a questão de poder estar saindo à noite, sair sozinha.” Ela também cita a preocupação com os filhos adolescentes que querem sair de casa e passear. Adriana Mendes entrevistada na série Voto Pendular Reprodução/TV Globo Para Renata, há uma diferença entre os relatos ouvidos em Salvador e em Camaçari. No Centro Histórico, a violência apareceu principalmente nas experiências pessoais e familiares. Em Camaçari, além disso, fica evidente o impacto sobre a atividade econômica. Felipe resume o sentimento que encontrou entre os comerciantes em uma palavra: medo. “As pessoas estão sentindo não só o medo pessoal, mas também a preocupação sobre para onde vai o negócio delas.” Indecisão e descrença aparecem entre os comerciantes A proximidade das eleições ainda não significa que todos os entrevistados tenham definido em quem votar. Adriana afirma que as conversas sobre política começam a aparecer, mas que o período eleitoral ainda não chegou ao auge. Geraldo diz perceber muita indecisão entre os clientes e admite estar na mesma situação. “As pessoas ainda não têm realmente, de fato, com quem vão votar, assim como eu não tenho.” Carlos demonstra uma visão ainda mais crítica. “Os políticos estão muito desacreditados”, afirma. Questionado por Felipe sobre o motivo de estar cada vez mais cético, responde: “Porque a gente não vê aquela mudança.” Para Renata e Felipe, os relatos revelam um sentimento de desalento entre parte dos eleitores. “Será que vai mudar mesmo? Será que, em algum momento, as coisas vão ser diferentes?”, resume Nunes. Adriana diz oscilar entre o otimismo e o pessimismo em relação ao futuro do país. “Otimista é porque a gente não perde a esperança. E pessimista é quando a gente vê certas coisas acontecendo no meio político, que não era para estar acontecendo.” Mesmo sem gostar de falar sobre política, ela considera impossível separar o tema das demais questões da vida. “Uma coisa está atrelada à outra.” Mãe de duas filhas e avó de uma menina, Adriana afirma que pensa nas próximas gerações ao escolher seus candidatos. “A gente tem essa preocupação de realmente votar nas pessoas que têm essa preocupação com a segurança do nosso país, com a segurança da nossa cidade. Para que elas cresçam num lugar mais seguro, melhor.” Salvador, Bahia Reprodução/TV Globo

FONTE: https://g1.globo.com/jornal-da-globo/noticia/2026/08/26/como-preocupacao-com-a-violencia-pesa-na-decisao-dos-eleitores-independentes-na-ba-veja-na-serie-voto-pendular-do-jornal-da-globo.ghtml


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