Consumo paterno de ultraprocessados pode influenciar peso e medidas corporais do bebê ao nascer, indica estudo brasileiro

  • 11/08/2026
(Foto: Reprodução)
Consumo paterno de ultraprocessados pode influenciar peso e medidas corporais do bebê ao nascer, indica estudo brasileiro Freepik / Adobe Stock A alimentação do pai pode ter relação com características físicas do bebê ao nascer, sugere um estudo brasileiro publicado na revista científica Nutrition Research. A pesquisa encontrou uma associação entre o maior consumo paterno de alimentos ultraprocessados e maior peso ao nascer, maior índice ponderal e maior acúmulo de gordura na coxa e na região abdominal, popularmente conhecida como “pneuzinho” dos recém-nascidos. O índice ponderal é o indicador de proporção entre peso e comprimento do bebê. Segundo o estudo, tanto o peso elevado ao nascer quanto o maior acúmulo de gordura no início da vida são fatores de risco para doenças cardiovasculares e metabólicas, além de maior risco de excesso de peso na vida adulta. O trabalho acompanhou 43 tríades formadas por pai, mãe e bebê em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. Em média, os alimentos ultraprocessados respondiam por 30% das calorias consumidas pelos pais. Entre as principais fontes estavam embutidos, bacon, bebidas adoçadas com açúcar e biscoitos. Os próprios pesquisadores, porém, fazem uma ressalva importante: os resultados não permitem afirmar que comer ultraprocessados fez os bebês nascerem maiores. O estudo é pequeno, utilizou uma amostra por conveniência e encontrou intervalos de confiança relativamente amplos. Os autores dizem que os achados devem ser interpretados com cautela e precisam ser confirmados por pesquisas maiores. Além disso, embora tenham sido encontradas associações com algumas medidas corporais, não houve associação entre o consumo paterno de ultraprocessados e a adiposidade neonatal, ou seja, com a estimativa da quantidade de gordura corporal dos bebês. Agora no g1 O que os pesquisadores encontraram O estudo avaliou quanto da energia total consumida pelos pais vinha de alimentos ultraprocessados, de acordo com a classificação NOVA. Nos modelos estatísticos ajustados, cada aumento na participação desses alimentos na dieta paterna apresentou associação direta com quatro parâmetros dos recém-nascidos: peso ao nascer; índice ponderal, uma medida que relaciona peso e comprimento do bebê; espessura da dobra cutânea suprailíaca; espessura da dobra cutânea da coxa. Para o peso ao nascer, o coeficiente calculado pelos pesquisadores foi de 12,81 gramas para cada ponto percentual adicional de energia proveniente de ultraprocessados na alimentação paterna, após os ajustes estatísticos previstos no estudo. A associação não foi encontrada para comprimento ao nascer, escore Z de peso, escore Z de comprimento, dobras bicipital, tricipital e subescapular, soma de quatro dobras cutâneas ou massa de gordura corporal. Isso significa que o resultado não aponta simplesmente para "bebês mais gordos". De fato, a hipótese dos pesquisadores de que o maior consumo paterno de ultraprocessados pudesse influenciar a adiposidade neonatal não foi confirmada. Ainda assim, os autores afirmam que os dados sugerem uma relação entre as escolhas alimentares paternas e alguns parâmetros da antropometria dos recém-nascidos. Segundo a pesquisadora Mariana Carvalho, o estudo é importante porque mostra que é preciso olhar também para a alimentação do pai ao pensar na saúde do bebê: “Durante muito tempo, os estudos e todo o foco foram principalmente para a saúde materna no período pré-gestacional. Mas hoje a gente sabe que essa visão é incompleta e que a saúde do pai também tem um papel importante”, afirma. Carvalho destaca que alimentação rica em alimentos ultraprocessados, pobre em frutas, verduras e legumes tende a piorar a qualidade global da dieta, favorecendo processos inflamatórios no corpo do homem. “Esses processos podem afetar a motilidade, a quantidade e a qualidade dos espermatozoides. E por meio de mecanismos epigenéticos, podem influenciar o desenvolvimento do bebê a curto prazo, na primeira infância, ou mesmo a longo prazo, na vida adulta”, acrescenta. Pesquisa acompanhou pais, mães e recém-nascidos em Ribeirão Preto O trabalho é uma coorte prospectiva inserida em um ensaio clínico randomizado que originalmente reuniu 350 gestantes com sobrepeso, com IMC pré-gestacional entre 25 e 29,9 kg/m². As mulheres faziam acompanhamento pré-natal em sete unidades de saúde de diferentes regiões de Ribeirão Preto entre 2018 e 2021. Para a análise sobre alimentação paterna, foram considerados 43 pais do grupo controle que tinham dados disponíveis sobre os desfechos estudados. A inclusão foi feita por amostragem de conveniência, já que a participação dos parceiros dependia inicialmente da autorização das gestantes e da disposição deles para participar. A mediana de idade dos pais foi de 30 anos. Entre eles, 39,5% tinham peso considerado adequado pelo IMC, 39,5% apresentavam sobrepeso e 20,9%, obesidade. Os recém-nascidos tiveram, em média, 3.253 gramas ao nascer, comprimento de 48,7 centímetros e perímetro cefálico de 34,1 centímetros. Como os cientistas avaliaram a alimentação dos pais A alimentação foi investigada por meio de dois recordatórios alimentares de 24 horas. No método, os participantes informavam todos os alimentos, preparações e bebidas consumidos no dia anterior à entrevista, além das quantidades. Um álbum de fotografias auxiliava na identificação das porções. Depois, os alimentos eram classificados segundo o sistema NOVA. O consumo de ultraprocessados foi calculado como a porcentagem da energia total da dieta proveniente desses produtos. A contribuição média dos ultraprocessados foi de: 30% das calorias na dieta dos pais, com desvio-padrão de 15 pontos percentuais; 26% das calorias na dieta das mães, com desvio-padrão de 9 pontos percentuais. Entre os homens, as principais fontes foram embutidos, bacon, bebidas açucaradas e biscoitos. Na dieta materna, destacaram-se hambúrgueres, refeições prontas para consumo, salgadinhos embalados e batatas fritas industrializadas. Os pesquisadores não encontraram correlação estatisticamente significativa entre a quantidade de ultraprocessados consumida pelos pais e pelas mães. Alimentação da mãe apresentou associação em direção oposta O estudo também analisou o consumo materno de ultraprocessados. Nesse caso, os pesquisadores encontraram um resultado diferente: o maior consumo desses alimentos no início da gravidez, até a 16ª semana, apresentou associação inversa com algumas medidas do bebê. Quanto maior a porcentagem de energia materna proveniente de ultraprocessados nesse período, menores foram, estatisticamente: o peso ao nascer; o comprimento ao nascer; o perímetro cefálico; o índice ponderal. Já o consumo materno de ultraprocessados no final da gravidez, a partir da 30ª semana, não apresentou associação com os parâmetros antropométricos avaliados. Os autores ressaltam, portanto, que os dados paternos e maternos apontaram em direções diferentes e sugerem uma interação complexa entre os estilos de vida dos dois pais e o crescimento fetal. Como a alimentação do pai poderia chegar ao bebê? Como o pai não participa diretamente do ambiente intrauterino, os pesquisadores discutem possíveis mecanismos para explicar a associação. Uma das hipóteses envolve a epigenética — alterações capazes de influenciar o funcionamento dos genes sem necessariamente mudar a sequência do DNA. Segundo o estudo, enquanto uma dieta materna pouco saudável pode afetar diretamente o crescimento fetal por mecanismos uterinos, a influência paterna poderia ocorrer por vias epigenéticas relacionadas aos espermatozoides. Os pesquisadores citam especialmente a metilação do DNA, um dos mecanismos epigenéticos investigados em estudos sobre saúde paterna antes da concepção. Outro possível caminho discutido é o do IGF-II, fator de crescimento semelhante à insulina II, envolvido no crescimento fetal e expresso a partir de um alelo paterno. Estudos anteriores citados no artigo encontraram relações entre obesidade paterna, padrões alimentares, consumo frequente de fast-food e alterações ligadas à metilação do IGF-II. Os autores, porém, apresentam esses mecanismos como hipóteses para explicar seus resultados, e não como algo demonstrado diretamente pela pesquisa atual. Outra possibilidade levantada é o efeito inflamatório associado aos ultraprocessados. Segundo a discussão do artigo, esses alimentos podem aumentar a produção de espécies reativas de oxigênio, relacionadas à inflamação e capazes de afetar a qualidade e a motilidade dos espermatozoides. Mais uma vez, o estudo não mediu diretamente essas alterações nos homens avaliados. Os mecanismos aparecem na discussão como possíveis explicações biológicas para as associações observadas. Estudo não prova que ultraprocessados do pai alteram o bebê Os autores dedicam parte importante do artigo às limitações da pesquisa. A principal delas é o pequeno tamanho da amostra: apenas 43 tríades tiveram dados completos para a análise principal, e algumas medidas feitas após o nascimento estavam disponíveis para somente 31 recém-nascidos. A coleta de dados ainda foi interrompida durante sete meses por causa da pandemia de Covid-19, o que prejudicou a inclusão de pais no estudo. Também houve dificuldade para conseguir a participação dos homens. Segundo o artigo, alguns alegaram falta de tempo ou interesse. Os pesquisadores observaram ainda intervalos de confiança relativamente amplos, o que representa maior incerteza nas estimativas e reduz a capacidade de tirar conclusões definitivas. O estudo pode também não ter tido poder estatístico suficiente para encontrar efeitos pequenos ou moderados. Por isso, os próprios autores destacam que a ausência de associação em determinados parâmetros não deve ser interpretada automaticamente como prova de que não exista qualquer efeito. Dieta antes da concepção não foi medida diretamente Outra limitação importante diz respeito ao momento em que a alimentação dos pais foi investigada. Idealmente, segundo os pesquisadores, seria necessário avaliar a dieta paterna antes da concepção. No entanto, o consumo alimentar foi medido enquanto as mulheres já estavam grávidas e usado como uma aproximação da dieta no período pré-concepcional. A coleta havia sido planejada inicialmente para ocorrer no começo da gravidez, mas dificuldades logísticas e o baixo engajamento dos pais fizeram com que grande parte das avaliações fosse realizada durante o segundo ou o terceiro trimestre. Além disso, apenas dois recordatórios alimentares de 24 horas foram utilizados. Embora esse método permita obter informações detalhadas sobre a alimentação de curto prazo, os próprios autores reconhecem que dois dias podem não representar perfeitamente a dieta habitual de uma pessoa. Resultados também não podem ser generalizados para todas as gestações Todas as mulheres incluídas no ensaio clínico apresentavam sobrepeso antes da gravidez. Assim, os pesquisadores afirmam que ainda não se sabe se a relação observada entre alimentação paterna e medidas do bebê também ocorreria quando a mãe estivesse em outras faixas de IMC. A composição corporal dos recém-nascidos também foi estimada indiretamente por um modelo antropométrico, e não pelo equipamento PEA POD, apontado no próprio estudo como padrão-ouro para essa avaliação. Os pesquisadores alertam ainda que o grande número de desfechos estatísticos testados aumenta a possibilidade de que alguns resultados tenham surgido ao acaso. Autores pedem novos estudos Apesar das limitações, os pesquisadores destacam como pontos fortes o caráter prospectivo do trabalho, a metodologia padronizada e a realização das avaliações por profissionais treinados. Na conclusão, eles reforçam que não encontraram associação entre o consumo paterno de ultraprocessados e a adiposidade neonatal, mas que os dados sugerem uma relação direta com peso ao nascer, índice ponderal e espessura das dobras cutâneas suprailíaca e da coxa. Os autores defendem que novas pesquisas são necessárias para confirmar ou refutar a hipótese, estabelecer se existe uma relação causal e compreender melhor a interação entre as dietas materna e paterna. Caso esses resultados sejam confirmados, afirmam, a participação do pai no planejamento familiar e nas discussões sobre alimentação antes da concepção poderá ganhar maior importância.

FONTE: https://g1.globo.com/saude/noticia/2026/08/11/consumo-paterno-de-ultraprocessados-influencia-peso-e-medidas-corporais-do-bebe-ao-nascer.ghtml


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