Demora no fornecimento de remédios contra câncer preocupa pacientes em SC: 'Tarde demais'
04/06/2026
(Foto: Reprodução) SC tem quase 600 processos judiciais para garantir medicamentos contra o câncer
A Associação Brasileira de Portadores de Câncer (AMUCC) informou, na quarta-feira (3), que acompanha 589 processos judiciais de pacientes que buscam medicamentos contra o câncer em Santa Catarina. Mesmo após decisões favoráveis na Justiça, muitos enfrentam meses de atraso na entrega dos remédios.
O tempo de espera, em casos de metástase, pode ser fatal.
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Pacientes como Grasiele Rodrigues aguardam há meses por remédios que seriam oferecidos pelo Ministério da Saúde, enquanto outros, como Cinthia Santos, de Tijucas, na Grande Florianópolis, morreram esperando a liberação judicial do tratamento (veja mais abaixo).
No aguardo da medicação
Grasiele Rodrigues aguarda uma medicação moderna voltada para o controle do avanço do câncer de mama metastático. Embora a Justiça tenha determinado que a União entregasse o fármaco em fevereiro deste ano, quatro meses depois ela ainda não recebeu o tratamento.
Em janeiro, Grasiele descobriu uma nova metástase no crânio e nos ossos.
“Se eu tivesse usado a medicação quando foi prescrito, lá em outubro, provavelmente não teria essa metástase. Essa medicação é justamente a única que chega à parte craniana", relata a paciente.
O medicamento relatado por Grasiele é considerado um dos mais avançados para o câncer de mama metastático, capaz de retardar o avanço da doença por mais tempo do que a quimioterapia convencional.
Por ainda não constar nos protocolos de oferta gratuita do Sistema Único de Saúde (SUS), o acesso é limitado. Na rede privada, cada ciclo do tratamento pode custar até R$ 60 mil, o que força as famílias a recorrerem à judicialização.
Em nota, o Ministério da Saúde informou que o processo de compra do medicamento de Grasiele está em andamento.
Paciente tem fornecimento de medicamento interrompido
Ganhar a ação judicial também não garante a continuidade do tratamento. Em Tijucas, na Grande Florianópolis, a paciente Marli Reis Santana chegou a receber o remédio, mas o fornecimento foi interrompido pela União há dois meses.
"Ela está há quase quatro ciclos sem tomar o medicamento. A gente já via uma melhora nela, uma evolução, e agora estamos vendo uma regressão por conta dessa interrupção”, afirma a filha, Marta Santana Andregtoni.
Sobre o caso de Marili, o Ministério da Saúde informou que foi efetuado, em 20 de maio, depósito judicial em favor de Marili, correspondente a três meses de tratamento.
Demora do governo em entregar remédios contra o câncer põe vidas em risco em SC.
Reprodução/EPTV
"Já era tarde demais"
Para algumas famílias, a resposta do Estado chega quando já não há mais tempo.
Cinthia Schmitz Santos, também moradora de Tijucas, passou mais de seis meses tentando obter a autorização judicial para o remédio. Diante da demora, a família organizou uma vaquinha solidária na comunidade para comprar a primeira dose por conta própria.
"A gente conseguiu comprar uma dose para ela tomar, mas já era tarde demais", lamenta Neidiane Schmitz dos Santos, mãe de Cinthya."Se tivesse começado lá em dezembro, talvez ela tivesse tido uma chance melhor. Ela tomou a dose em junho do ano passado e, dez dias depois, veio a falecer."
Quando é obrigação da União?
De acordo com a advogada da associação, Ana Guedes, a responsabilidade financeira pelo fornecimento varia de acordo com o valor do tratamento. Quando o custo anual atinge até R$ 230 mil, a obrigação recai sobre o estado.
Acima desse patamar, a responsabilidade passa a ser obrigatoriamente da União, cabendo ao Ministério da Saúde a execução da entrega. O principal entrave, segundo a especialista, ocorre após a primeira vitória nos tribunais.
"Quando o paciente junta todos os documentos e tem o reconhecimento validado pelo Judiciário, a gente precisa entrar com um outro processo em paralelo apenas para cumprir a decisão judicial. Fica fora de qualquer compreensão: por que precisamos de um novo processo para exigir o que já foi concedido?", explica a advogada.
O que diz o Ministério da Saúde
Em relação ao caso de Marli Reis Santana, foi efetuado, em 20 de maio, depósito judicial em favor da paciente, correspondente a três meses de tratamento.
No caso de Grasiele Rodrigues, o processo de compra do medicamento encontra-se em andamento. Paralelamente, o Ministério da Saúde solicitou autorização ao Juízo responsável para a realização de depósito judicial.
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