El Niño forte: centro que monitora desastres no Brasil avalia riscos e incertezas
20/05/2026
(Foto: Reprodução) Mapa mostra as anomalias de temperatura da superfície do mar no Pacífico em abril de 2026. Áreas em azul indicam águas mais frias que a média, padrão associado à La Niña
NOAA
Uma nota técnica elaborada por pesquisadores do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) aponta que modelos climáticos internacionais já indicam a possibilidade de desenvolvimento de um El Niño forte ou muito forte entre 2026 e 2027, com potencial para aumentar riscos de eventos extremos no Brasil.
O documento foi enviado à Casa Civil e ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), mas não trata o cenário como uma previsão fechada.
⚠️ Ao longo do texto, os pesquisadores destacam repetidamente que ainda há elevada incerteza nas projeções feitas para períodos mais longos.
Na nota, o Cemaden afirma que modelos climáticos do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas (ECMWF), da agência americana NOAA e do serviço meteorológico da Austrália convergem para um cenário de aquecimento das águas do Pacífico tropical (entenda mais ABAIXO).
Segundo o texto, algumas simulações sugerem um evento que “poderá se tornar o El Niño mais forte da história moderna”, mas os próprios autores ressaltam que essas previsões “ainda têm baixa confiabilidade no longo prazo”.
“As projeções feitas com meses de antecedência não têm capacidade de indicar eventos isolados, especialmente extremos, como uma tempestade específica em determinado município ou dia", diz ao g1 Pedro Ivo Camarinha, doutor em Mudanças Climáticas e Desastres, diretor substituto do Cemaden e um dos pesquisadores que assinam a nota técnica.
"O que elas mostram são tendências mais amplas: regiões onde há maior probabilidade de chover acima ou abaixo da média, ou de registrar temperaturas mais altas ou mais baixas que o normal".
O documento explica, por exemplo, que um “Super El Niño” é caracterizado por anomalias acima de 2°C na região Niño 3.4 do Oceano Pacífico.
A nota diz ainda que projeções recentes do ECMWF chegaram a indicar valores próximos de 3°C, acima do limiar usado para classificar eventos muito fortes.
Contudo, os pesquisadores alertam para exageros em parte das interpretações divulgadas recentemente sobre o tema.
O documento chega a afirmar que algumas notícias que projetam secas severas ou chuvas catastróficas no país “não são sustentadas por dados científicos confiáveis” neste momento e podem gerar ruído na comunicação pública.
🌊 ENTENDA: O El Niño e a La Niña são as duas fases do mesmo fenômeno climático, chamado ENOS (El Niño-Oscilação Sul).
O El Niño é caracterizado pelo aquecimento maior ou igual a 0,5°C das águas do Oceano Pacífico equatorial.
No começo do mês, o centro de Previsão Climática (CPC) dos Estados Unidos, vinculado à agência oceânica e atmosférica norte-americana (NOAA), elevou para 82% a probabilidade de o El Niño se formar no trimestre maio-julho de 2026.
A nova projeção representa um aumento em relação à discussão divulgada em abril, quando a probabilidade de formação no mesmo trimestre era de 61%.
Com isso, a chance de o fenômeno persistir até o trimestre dezembro-fevereiro, no início de 2027, também foi estimada em 96%.
No último mês, segundo o boletim, o Pacífico equatorial seguiu em condição de neutralidade, com temperaturas da superfície do mar próximas da média na porção centro-leste da bacia.
O índice Niño-3.4, principal referência usada para monitorar o fenômeno, ficou em +0,4°C na semana mais recente.
Os índices das regiões Niño-4, mais a oeste, e Niño-1+2, mais a leste, ficaram em +0,5°C e +1,0°C.
Imagem de drone mostra avião em meio a alagamento no Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre, no dia 7 de maio de 2024; episódio ocorreu durante período de El Niño, que pode aumentar a frequência de chuvas intensas no Sul do Brasil.
Wesley Santos/Reuters
'Barreira de previsibilidade'
Na mesma nota técnica, os pesquisadores do Cemaden fazem uma ressalva importante: previsões iniciadas em maio têm perda rápida de confiabilidade devido à chamada “barreira de previsibilidade" do sistema oceano-atmosfera.
Isso acontece porque, historicamente, o período entre março e maio é marcado por uma transição natural no Oceano Pacífico que dificulta a identificação dos sinais de aquecimento ou resfriamento ligados ao El Niño e à La Niña.
Embora a confiança na formação do El Niño tenha aumentado em relação ao mês anterior, por exemplo, a própria NOAA afirma que há incerteza substancial sobre a intensidade do pico do fenômeno.
➡️ Nenhuma das categorias avaliadas pelo centro (fraco, moderado, forte ou muito forte) ultrapassa 37% de probabilidade nas projeções atuais, o que significa que nenhum cenário de intensidade pode ser tratado como mais provável do que os demais.
Segundo o último boletim da agência, os El Niños mais intensos do registro histórico têm em comum um acoplamento significativo entre oceano e atmosfera ao longo dos meses de verão no Hemisfério Norte, ou seja, uma resposta atmosférica consistente ao aquecimento do Pacífico.
Esse acoplamento ainda não foi observado em 2026, e a NOAA não tem como afirmar ainda se ocorrerá nos próximos meses.
As projeções tendem a ganhar mais precisão a partir de junho.
O que a nota aponta para o Brasil
Segundo a análise do Cemaden, caso o cenário atual se confirme, o Brasil pode enfrentar impactos semelhantes aos observados durante o El Niño de 2023/2024.
No Norte e no Nordeste, a tendência indicada é de redução das chuvas, aumento das temperaturas e agravamento das condições de seca.
Já no Sul, os pesquisadores identificam maior propensão a episódios de chuva intensa e persistente, principalmente entre a primavera e o verão.
A nota afirma que o Rio Grande do Sul aparece como o estado com “sinal mais robusto” de aumento de risco hidrológico.
O texto cita possibilidade maior de enchentes, inundações, enxurradas e deslizamentos, especialmente em áreas da Serra Gaúcha, do Planalto Meridional e da região de Porto Alegre.
Santa Catarina e Paraná também aparecem com aumento potencial de eventos extremos de chuva, embora com maior variabilidade regional.
Projeção da agência dos EUA mostra que a chance de El Niño cresce ao longo de 2026; intensidade segue indefinida.
NOAA
O documento também relaciona um eventual El Niño intenso ao aumento das ondas de calor em um contexto de aquecimento global.
Segundo os pesquisadores, os anos de 2023, 2024 e 2025 já registraram recordes recentes de calor e aumento da frequência de ondas de calor no país.
A nota aponta ainda que uma combinação entre seca e temperaturas elevadas pode ampliar o risco de incêndios florestais na Amazônia e no Pantanal.
Nas conclusões, contudo, os pesquisadores reforçam que a análise “não é uma previsão determinística” e deve ser usada para orientar monitoramento, preparação e planejamento antecipado diante de um cenário ainda incerto.
Cada El Niño monta um novo quebra-cabeça sobre o Brasil. Nenhum evento repete exatamente o anterior, mas alguns padrões aparecem com frequência quando olhamos para o passado: por exemplo, áreas mais propensas a excesso de chuva, regiões mais sujeitas à seca e setores mais sensíveis a ondas de calor ou impactos hidrológicos. Essas peças não explicam o quadro inteiro, mas ajudam a orientar o monitoramento, a preparação e a tomada de decisão preventiva.
Veja os vídeos que estão em alta no g1
🌎 O que é o El Niño — e por que ele importa tanto
O El Niño é um aquecimento das águas do Oceano Pacífico na faixa próxima à linha do Equador.
Ele faz parte de um ciclo natural do clima que alterna fases quentes (El Niño), frias (La Niña) e neutras — com impactos em várias regiões do planeta.
Esse aquecimento muda a circulação da atmosfera e altera o padrão de chuvas e temperaturas em diferentes partes do mundo.
No Brasil, os efeitos costumam ser desiguais: o Sul tende a ter mais chuva, enquanto áreas do Norte e do Nordeste podem enfrentar períodos mais secos.
O fenômeno também influencia a temperatura global. Em anos de El Niño mais intenso, o planeta costuma registrar calor acima da média, somando-se ao aquecimento global.
A intensidade varia de um evento para outro, assim como os impactos. E, com o planeta já mais quente, mesmo episódios moderados podem ter efeitos mais fortes do que no passado.
Pela 1ª vez, mundo registra um dia com temperatura média global 2°C acima da era pré-industrial
Imagens do satélite mostram variações no nível do mar em abril de 2026; áreas em vermelho indicando águas mais elevadas no Pacífico equatorial, sinal típico associado ao desenvolvimento do El Niño.
Sentinel-6 Michael Freilich/NASA/NOAA
🌧️ Possíveis impactos no Brasil
Historicamente, o El Niño altera o padrão de chuva e temperatura no país e causa:
aumento de chuva no Sul, com risco maior de eventos extremos;
redução de chuvas no Norte e em partes do Nordeste;
mais irregularidade nas precipitações no Sudeste e Centro-Oeste;
maior frequência de ondas de calor.
Segundo especialistas, um dos principais efeitos esperados é o aumento de períodos prolongados de calor, especialmente na primavera e no verão.
Mesmo com a alternância entre La Niña, neutralidade e El Niño, os cientistas destacam que o aquecimento global continua sendo o principal fator por trás das mudanças no clima.
Com os oceanos já mais quentes do que a média histórica, a expectativa é de que os próximos meses sigam registrando temperaturas elevadas em várias regiões do planeta.
El Niño e La Niña
Arte g1/Luisa Rivas
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