Entidades e autoridades da região de Ribeirão Preto repudiam listas de boicote a empresários por apoio a Lula
27/10/2026
(Foto: Reprodução) MP vê possível crime em listas de boicote a empresários da região
Entidades de classe e autoridades da região de Ribeirão Preto (SP) repudiaram nesta terça-feira (27) a circulação de listas em redes sociais e aplicativos de mensagens que incentivam o boicote a empresas e comerciantes apontados como simpatizantes do Partido dos Trabalhadores (PT) ou apoiadores da reeleição do presidente Lula.
As mensagens apelam para que consumidores não comprem produtos, não contratem serviços e não ofereçam negócios ou solidariedade aos estabelecimentos listados.
As publicações com indicação de boicote começaram a ser compartilhadas após a divulgação do resultado do segundo turno das eleições 2026 e foram registradas em ao menos dez municípios da região: Ribeirão Preto, Serrana, Sertãozinho, Franca, Brodowski, Altinópolis, Santa Rosa de Viterbo, Bebedouro, Barretos e Cajuru.
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Segundo o Ministério Público, a criação e o compartilhamento desse tipo de lista podem acarretar responsabilização criminal e cível dos autores.
O promotor de Justiça Carlos Cezar Barbosa, responsável pelas áreas de direitos humanos e inclusão social em Ribeirão Preto, explica que a conduta se enquadra no crime de injúria.
"Injúria porque aquele que fez a divulgação, aquele que divulgou a lista e aquele que compartilhou a lista, está se colocando de uma forma supremacista sobre aquele que está figurando na lista. Ou seja, ele quer ofender aquele que está figurando na lista como se fosse uma pessoa menor, como se fosse uma pessoa de categoria menor do que a dele", explicou.
🔍 Injúria é um crime contra a honra que consiste em ofender a dignidade de outra pessoa.
Lista de boicote a empresários de Serrana (SP) circula nas redes sociais após vitória de Lula no segundo turno.
Reprodução/EPTV
O promotor ressaltou que a Polícia Civil possui recursos tecnológicos para identificar a origem das mensagens e localizar os autores. Ele lembra ainda que eventuais prejuízos financeiros causados pela exposição das empresas podem ser objeto de ressarcimento na esfera cível.
"É objeto de indenização por danos materiais. Ele sofreu uma perda de receita por conta de figurar numa lista dessa natureza", afirmou o promotor.
O MP orientou que todos os empresários e comerciantes que se sentirem lesados procurem a polícia e façam um boletim de ocorrência.
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Medo e clima de intimidação
A inclusão de nomes em diretórios virtuais de boicote tem gerado clima de apreensão entre comerciantes e trabalhadores da região.
Em Serrana, o empresário Francisco Meghelli, proprietário de uma imobiliária, relata ter sido surpreendido ao ver a empresa citada em uma das publicações após ter se posicionado publicamente pela eleição de Lula.
"É uma tentativa de intimidação gigantesca, porque a ideia dessa lista é fazer com que a pessoa que pensa diferente de você se cale e isso não pode ser aceito de forma alguma", disse.
Meghelli destacou também a importância do respeito à pluralidade de opiniões no ambiente democrático. "Eu tenho uma opinião política, outra pessoa tem outra opinião e mesmo eu não concordando com a opinião do outro, eu preciso respeitar a pessoa", acrescentou.
Lista de boicote a empresários de Ribeirão Preto circula nas redes sociais após reeleição de Lula.
Reprodução/ EPTV
Na mesma cidade, o comerciante Junior Andrade, dono de uma casa de açaí, conta que passou a constar na lista mesmo sem ter declarado preferência partidária. Ele relata episódios de hostilidade vividos pela equipe.
"Até as próprias funcionárias da loja ficam com receio. De ontem para cá, uma das minhas funcionárias até mesmo recebeu um xingamento de um motoqueiro que estava passando e isso causa um certo estranhamento, um certo medo", contou.
A cabeleireira Ana Paula da Silva cobrou atuação das forças de segurança para identificar a autoria das mensagens.
"Nossos direitos são prejudicados porque ficamos com medo de estar expondo o que a gente acredita e exercendo os nossos direitos. Temos que identificar quem começou essa lista", cobrou.
Em Brodowski, a veterinária Elaine Cristina Sobral destacou que a orientação política de clientes e profissionais nunca interferiu na prestação de seus serviços.
"Eu tenho mais de 14 mil pacientes cadastrados que eu cuido e nunca, nesses 14 anos, eu precisei perguntar que partido que a pessoa pertencia, que partido que ela gosta, que partido que ela vai votar. Então, isso não importa para mim", afirmou.
Em Ribeirão Preto, o empresário Carlos Sturari, proprietário de um bar no Centro, também cobrou providências e criticou o impacto negativo das publicações sobre funcionários e famílias.
"Essa lista é uma lista do ódio, onde a gente esquece das famílias, a gente esquece dos colaboradores, a gente esquece de todo mundo que participa voluntariamente, involuntariamente, desses estabelecimentos", declarou.
O promotor de Justiça Carlos Cezar Barbosa, de Ribeirão Preto (SP), repudiou listas de boicote motivada por opção política.
Reprodução/EPTV
Entidades condenam listas de boicote
Entidades do setor produtivo regional condenaram os boicotes motivados por política. A Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto (Acirp) ressaltou que a convivência plural e o respeito às escolhas individuais são preceitos fundamentais da atividade econômica.
"A divergência de pensamento não deve ser transformada em instrumento de hostilidade, constrangimento ou desqualificação de empresários e estabelecimentos comerciais que pensam de maneira diferente", destacou.
A entidade enfatizou que sua atuação institucional é guiada pela defesa imparcial de todo o empresariado e reforçou que o debate democrático pressupõe a convivência entre posicionamentos divergentes.
"Discordar é legítimo; transformar a divergência em motivo para hostilizar ou desqualificar quem pensa diferente compromete o respeito mútuo e a convivência necessária à construção de uma sociedade mais livre e democrática", concluiu a nota da entidade.
Lista de boicote a empresários de Sertãozinho após vitória das urnas de Lula no segundo turno.
Reprodução/ EPTV
O Sindicato do Comércio Varejista de Ribeirão Preto e Região (Sincovarp), que representa o setor em Ribeirão Preto e outros 43 municípios, também repudiou qualquer discriminação comercial por razões político-partidárias.
A entidade enfatizou a necessidade de se superar das divisões eleitorais para a recuperação econômica local.
"A eleição acabou, o resultado das urnas precisa ser respeitado e o comércio tem de olhar para frente. Iniciativas que provocam divisões não agregam nada. Só vamos conseguir superar nossos desafios se nos mantivermos fortes e unidos, por meio do diálogo, bom senso e do equilíbrio", reforçou.
Lula se reelegeu presidente do Brasil.
Jornal Nacional/ Reprodução
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