Equipe do JN está em uma das áreas mais afetadas pelas enchentes no Nepal: 'Cidade devastada'
28/08/2026
(Foto: Reprodução) JN direto do Nepal: enviados especiais mostram regiões devastadas por avalanche
Três dias depois da avalanche na fronteira do Nepal com o Tibete, o governo chinês alertou que o risco de uma nova enxurrada pode ameaçar as operações de resgate. É que um lago no alto das montanhas começou a transbordar. O número de mortos subiu para 586. Os enviados especiais Felipe Santana e Lucas Louis chegaram nesta sexta-feira (28) às regiões devastadas.
Desde Katmandu, a capital do Nepal, são cerca de 80 km ao norte em direção à Cordilheira do Himalaia. Você sobe cada vez mais, até enxergar lá embaixo os vales por onde desceu a água toda. Foi quase impossível escapar.
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“A gente já chegou no distrito que foi um dos mais afetados pela tragédia. Se chama Nuwakot. Aqui a gente consegue ver a quantidade de água por todos os lados, saindo das montanhas e atravessando as pistas para os carros. É época de monções aqui no Nepal, chove muito, a quantidade de água é muito grande. Agora, com o rompimento da geleira, tudo se intensificou ainda mais. É muita água por toda essa região”, conta o correspondente Felipe Santana.
Equipe do JN está em uma das áreas mais afetadas pelas enchentes no Nepal
Jornal Nacional/ Reprodução
Os deslizamentos de terra lá são comuns. A erosão é inimiga antiga do país - que derruba a mata das encostas para plantar arroz. Depois de duas horas de estrada, uma vila inteira se une embaixo de uma árvore em cima do morro.
“Aqui você consegue segurar a tensão com as mãos. Eles olham, sem poder fazer nada, a destruição causada pela enxurrada. Ele está me contando que mora aqui para cima e viu tudo. Está mostrando os vídeos aqui da hora, olha só que impressionante. Essa é a hora em que o rio leva a ponte junto. Tudo isso que é cinza agora era verde antes de ontem, e cheio de casas. Ela está me contando que tinha uma lojinha logo aqui embaixo, na beira do rio, mas a filha dela veio correndo, contou que estava vindo a água. Elas saíram correndo, conseguiram se salvar, mas perderam tudo: a lojinha, a casa que ficava em cima. Ela está contando também que não quer mais voltar para lá porque agora tem medo de que alguma coisa aconteça mais uma vez”, relata Felipe Santana.
“A dona Maya está me contando aqui que a família dela inteira estava em uma cidade aqui perto que foi totalmente varrida do mapa. Eles estão todos desaparecidos. Ela me fala que não tem mais esperança neste momento, porque a cidade inteira foi toda varrida e, nem mesmo achar os corpos, na opinião dela, vai ser possível”, diz Rodrigo Santana.
Equipe do JN está em uma das áreas mais afetadas pelas enchentes no Nepal
Jornal Nacional/ Reprodução
Só que nesta sexta-feira (28), nem os resgatistas podiam ir lá embaixo, porque havia alerta de uma nova enxurrada que foi emitido pelo governo da China. Os chineses disseram que o lago no alto das montanhas, formado depois da avalanche, começou a transbordar. O risco maior é de que o lago rompa a represa que se formou ali. As autoridades locais diziam que uma nova avalanche poderia ser mais forte do que a primeira.
“Ainda tem muita gente ilhada na outra margem. Os resgatistas não estão podendo ir lá embaixo, só o Exército aqui do Nepal, que está levando helicóptero para tirar as pessoas lá do outro lado. O Sureshkumar está me contando que tinha uma lojinha ali e o irmão dele tinha uma lojinha ao lado. Mas, por dois minutos, o irmão dele não conseguiu sair. Ele está há dois dias indo lá, botando a perna na lama para tentar encontrar o corpo do irmão, mas que ele acha que não vai mais ser possível. Ele vai nos levar ao lugar em que ele está indo todo dia procurar o corpo do irmão”, conta Rodrigo Santana.
Uma das áreas mais afetadas. As casas que ficaram de pé estão completamente embaixo da lama. Os postes todos caíram, os fios. É claro que ficou toda a região sem eletricidade, sem comunicação. Isso dificulta os resgates. Muita gente sequer foi dada como desaparecida porque não tinha jeito de informar as autoridades. Vilas inteiras foram dizimadas. Outras mais remotas não têm comunicação.
“Esse aqui era o asilo dessa vila. Oitenta pessoas estavam dentro desse prédio na hora do desastre e cinco delas, que estavam aqui no andar térreo, morreram na hora. Aqui está vindo o pessoal do Exército do Nepal trazendo um drone. Eles estão trabalhando nas buscas nessa região. Eles estão pedindo, claro, para a gente não ir para lá, para não atrapalhar a busca. Mas aqui você vê a altura da lama. Olha ali o telhado da casa, a gente só vê a ponta do telhado. E aí, procurando, você só vê o cilindro de gás que ficou flutuando na lama, aquele rosa ali”, conta Felipe Santana.
“O Exército recebeu um aviso de um morador de que tem um corpo enterrado aqui embaixo. Eles estão indo com os cães farejadores ali buscar. É difícil descrever o cheiro que está aqui. Você sente que tem pessoas mortas aqui embaixo. Sem sucesso. É muito difícil o trabalho deles, porque a lama, quando eles chegaram lá, chegou na cintura”, relata Felipe Santana.
Equipe do JN está em uma das áreas mais afetadas pelas enchentes no Nepal
Jornal Nacional/ Reprodução
São 30 mil agentes de segurança, entre eles, mais de 3 mil homens do Exército nepalês trabalhando nas buscas. Afirmam que resgataram 4 mil pessoas.
“O comandante aqui desse grupo não pode falar na câmera, mas ele me confirmou que o mais difícil aqui agora é que o pessoal não tem equipamento. Eles estão usando bermuda, chinelo, pás e paus para tentar achar os corpos com a lama até a cintura. Muito difícil o trabalho deles por aqui, realmente. Ele diz que está subindo a água e a gente tem que sair. Eles mesmos estão saindo daqui. Ele está me mostrando que a casa dele era aquela ali, que foi totalmente destruída, ficava bem às margens do rio. Ele está contando que passou dez anos no calor de Dubai para juntar dinheiro e construir aquela casa e, agora, ele está olhando para essa casa e não a reconhece mais. E, ainda por cima, o corpo do irmão dele pode estar lá dentro, e que ele está totalmente devastado”, diz Felipe Santana.
Desaparecidos
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