Estudo da USP encontra fentanil em 3 de cada 10 usuários de drogas sintéticas analisados em SP

  • 22/10/2026
(Foto: Reprodução)
USP encontra fentanil em drogas sintéticas Um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) identificou fentanil na saliva de 32% dos usuários de canabinoides sintéticos analisados na capital paulista. Nenhum dos participantes relatou ter consumido a substância. A pesquisa contou com 65 voluntários atendidos em serviços de tratamento e atenção psicossocial em São Paulo. Todos informaram ter usado canabinoides sintéticos, drogas conhecidas como K2 ou K9, nos quatro dias anteriores às entrevistas. As amostras foram analisadas pelo Laboratório de Toxicologia da FMUSP a partir da coleta de saliva. Entre os participantes que testaram positivo para fentanil, também foi registrada maior frequência de sintomas graves, como náuseas, vômitos e dores musculares intensas. O estudo observou ainda que a presença não intencional de fentanil foi mais frequente entre pessoas em situação de rua e participantes com histórico prolongado de uso de drogas sintéticas. Risco de exposição sem conhecimento O fentanil é um opioide sintético utilizado de forma legítima na medicina e na anestesia. Segundo a FMUSP, a exposição acidental pode provocar depressão respiratória e levar a uma overdose fatal, principalmente em pessoas sem tolerância a opioides. Os pesquisadores ressaltam, porém, que o estudo não permite determinar como ocorreu a exposição ao fentanil. Entre as possibilidades apontadas estão a presença da substância em outras drogas, o consumo de opioides não relatado pelos participantes ou outras formas de exposição. Para Ligia Goes Endo, primeira autora do estudo e doutoranda em Ciências pela FMUSP, os resultados reforçam a importância de acompanhar as drogas que estão circulando no país. “O monitoramento constante do mercado de drogas é fundamental para orientar estratégias de redução de danos, atualizar os protocolos médicos de emergência – inclusive no uso de medicamentos como a naloxona para reverter overdoses – e evitar crises de saúde pública semelhantes às observadas em outros países”, afirma Ligia Goes Endo. Fentanil Polícia Federal/Divulgação Fentanil surpreendeu pesquisadores A presença do fentanil surpreendeu os responsáveis pelo estudo. A pesquisadora afirma que os valores relatados pelos usuários para a compra das drogas ajudavam a afastar inicialmente essa hipótese. “A gente realmente não esperava, justamente por o fentanil ser um opioide sintético de uso restrito. As pessoas com quem a gente falou diziam que essa substância custava R$ 1, R$ 5. Então, como encontrar o fentanil, que é uma substância cara, um medicamento caro, numa droga tão barata?”, afirma Lígia. Para Maurício Yonamine, professor e pesquisador da Faculdade de Medicina da USP, uma das preocupações é que a mistura seja feita para aumentar o potencial de dependência dos usuários. “Obviamente, o traficante está fazendo isso com esse intuito: causar mais dependência nas pessoas, causar mais vício e fazer com que elas procurem mais a droga”, afirma. Parte das amostras analisadas pelos pesquisadores veio de pacientes do Instituto Perdizes, da USP. O psiquiatra Guilherme Kortas, do ambulatório Poli, alerta que o consumo de fentanil sem o conhecimento do usuário também dificulta o atendimento médico em casos de intoxicação. “É muito preocupante porque as pessoas estão ingerindo essa substância sem ter consciência disso. Muitas vezes, no pronto-socorro, as equipes médicas não vão estar atentas para uma intoxicação por fentanil, para fechar um diagnóstico correto e estabelecer o tratamento correto”, diz Kortas. Polícia investiga origem do fentanil Em São Paulo, a Polícia Militar já apreendeu frascos de fentanil escondidos no fundo falso de um carro. Em outro caso, uma mulher foi presa após furtar fentanil de um hospital em Cabreúva. A origem da droga que circula ilegalmente, no entanto, ainda é investigada. Uma das frentes da Polícia Civil de São Paulo é descobrir como o fentanil chega aos traficantes. Carlos Castiglioni, diretor do Denarc, afirma que os investigadores estão comparando a quantidade do medicamento comprada com a consumida por hospitais. “Já estamos começando a fazer um paralelo entre o que é comprado e o que é consumido nos hospitais para ver se é daí mesmo, se é só através de desvio da rede hospitalar, de laboratórios, ou, o que seria mais alarmante e preocupante, se esse fentanil está sendo produzido ou até trazido de fora de maneira clandestina”, afirma Castiglioni. Para Lígia, identificar a circulação do fentanil neste momento pode ajudar o país a evitar um problema de saúde pública semelhante ao enfrentado pelos Estados Unidos. “Se a gente conseguir barrar esse uso agora e ter uma vigilância epidemiológica um pouco mais forte em relação a isso, talvez a gente consiga não ter uma epidemia como a que existe nos Estados Unidos”, afirma.

FONTE: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/10/22/estudo-da-usp-encontra-fentanil-em-3-de-cada-10-usuarios-de-drogas-sinteticas-analisados-em-sp.ghtml


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