Geraldo Alckmin venceu a desconfiança de petistas e se consolidou como 'companheiro' de Lula, de quem foi rival em 2006
29/07/2026
(Foto: Reprodução) Geraldo José Rodrigues Alckmin Filho tem 73 anos de idade e 54 de política. Já foi vereador, prefeito, deputado estadual, deputado federal, vice-governador, governador e ministro – função que acumulou com a de vice-presidente no terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Nascido em Pindamonhangaba (SP), em 7 de novembro de 1952, o vice-presidente é formado em medicina pela Universidade de Taubaté, com especialização em anestesiologia.
O PSB, partido ao qual Alckmin se filiou em 2022, confirmou nesta quarta-feira (29), durante convenção nacional realizada em Brasília, que ele será candidato à reeleição na chapa encabeçada por Lula.
A confirmação da candidatura a vice-presidente foi um ato meramente protocolar, uma vez que, quatro meses atrás, o presidente já havia anunciado que a parceria "lula com chuchu", vitoriosa em 2022, seria repetida nas eleições de outubro deste ano.
Lula confirma Geraldo Alckmin como vice na chapa à reeleição
O anúncio, feito pelo presidente durante uma reunião ministerial em março, silenciou rumores de que havia, no PT, uma articulação para substituir Alckmin na chapa de Lula em 2026.
Também foi uma demonstração de que o vice-presidente – que foi um dos principais quadros do PSDB por mais de três décadas, arquirrival de Lula nas eleições de 2006 e um crítico das gestões do PT no passado – superou a desconfiança da grande maioria dos petistas.
O político de discursos curtos, intercalados com piadas repetidas, de estilo considerado "insosso" – o que lhe rendeu o apelido "picolé de chuchu" – passou a ser chamado de "companheiro Alckmin" por Lula.
Utilizando meias divertidas, o vice-presidente – que chegou a dar dicas de saúde na televisão após um tímido quarto lugar na eleição presidencial de 2018 – ganhou papel de destaque no terceiro mandato de Lula.
Ex-ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Alckmin foi um articulador importante na resposta do governo Lula ao tarifaço imposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (leia mais aqui).
Geraldo Alckmin, vice-presidente da República
Cadu Gomes/VPR
Essa habilidade para a negociação com o setor produtivo foi uma das razões que fizeram Lula buscar, em 2022, uma aliança com o ex-adversário, em uma estratégia que ajudou o petista a conquistar votos de eleitores de centro e, também, no estado de São Paulo, onde Alckmin construiu a carreira política.
Na ocasião, Fernando Haddad (PT) e Márcio França (PSB) foram os principais responsáveis pela aproximação inusitada, que venceu a resistência de uma ala petista.
Semanas após a filiação de Alckmin ao PSB, em 2022, ele e Lula ouviram juntos, em um evento do partido, o hino da Internacional Socialista, um movimento de partidos de esquerda. À época, o ex-tucano, com trajetória no conservadorismo, disse ter ficado à vontade com o episódio.
Com a confirmação de Alckmin na chapa, Lula repete uma fórmula que foi bem-sucedida nas eleições de 2002 e 2006, pleitos em que o empresário José Alencar foi o candidato a vice.
Foto de outubro de 2008 mostra Geraldo Alckmin, acompanhado da esposa, Lu Alckmin, da filha Sophia, e do filho Thomaz Alckmin, que faleceu em 2015.
Paulo Liebert/Estadão Conteúdo/Arquivo
O candidato a vice-presidente é casado há quase 50 anos com a professora Maria Lúcia Ribeiro Alckmin, conhecida como Lu Alckmin, com quem teve três filhos: Sophia, Geraldo e Thomaz. Em 2015, Thomaz morreu em um trágico acidente de helicóptero. O casal tem sete netos.
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Coordenador da reação ao tarifaço de Trump
Além de vice-presidente, Alckmin foi titular, até abril deste ano, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Por várias vezes, Lula elogiou a atuação de Alckmin no governo.
Para chefiar o MDIC, o petista afirmava que estava à procura de um "cara moderno, da inovação" para o cargo. E que ouviu vários candidatos à vaga.
"O último cidadão que conversei, falou tanta teoria bonita. Eu perguntei se já tinha colocado alguma em prática, e ele disse que não. Ali bati o martelo que Alckmin seria o ministro", lembrou Lula em uma cerimônia.
Alckmin ganhou protagonismo no ano passado, após as ofensivas comerciais dos Estados Unidos contra o Brasil. O vice-presidente assumiu a coordenação da resposta ao tarifaço de Trump – as diversas taxas impostas sobre as exportações brasileiras.
🔎 Tarifaço é o nome dado às tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros durante o governo Donald Trump. Em 2026, uma sobretaxa de 25% passou a incidir sobre parte das exportações nacionais. Em alguns setores, foi acrescida uma taxa de 12,5%.
O vice-presidente foi o responsável por fazer a ponte entre o governo e os setores impactados pela taxação imposta pelos Estados Unidos.
Como titular do MDIC, Alckmin também lançou um pacote de políticas voltadas ao fortalecimento do setor industrial, como:
a Nova Indústria Brasil (NIB), um programa de linhas de crédito para a modernização da produção nacional;
o Programa Mobilidade Verde e Inovação (Mover), voltado para a descarbonização automotiva e atração de aportes na fabricação de veículos elétricos e híbridos; e
um programa temporário de desconto para veículos populares (2023), que concedeu abatimentos diretos em carros de passeio, caminhões e ônibus para aquecer o mercado interno e renovar frotas rodoviárias no país.
Em 2023 e em 2024, Alckmin também atuou na elaboração de medidas voltadas ao setor industrial para reduzir os impactos econômicos das fortes chuvas que atingiram o Rio Grande do Sul. O vice-presidente esteve no estado representando Lula e articulou a liberação de uma verba emergencial para o estado.
Lula e Alckmin em cerimônia
Ricardo Stuckert/PR
'Taxa das blusinhas'
O vice-presidente também se envolveu no debate sobre a chamada "taxa das blusinhas" — imposto que era cobrado sobre compras internacionais de baixo valor feitas pela internet.
Alckmin defendeu a cobrança do tributo e afirmou ser necessária para a preservação de empregos. No entanto, a medida é criticada pelo presidente Lula e outros ministros.
Diante do ano eleitoral e da queda de braço criada na discussão, o presidente Lula decidiu revogar o imposto federal.
Declarações e gestos ao longo do mandato
Em 2025, Alckmin classificou como "lamentável" a posse de Nicolás Maduro – que já foi um aliado próximo de Lula – como presidente da Venezuela.
Em outra oportunidade, em abril de 2026, ao se referir a Flávio Bolsonaro, disse "quem defende ditadura não devia nem ser candidato".
Outro episódio de destaque foi a devolução de presentes que recebeu da Arábia Saudita, por recomendação da Receita Federal. Na época, o ex-presidente Jair Bolsonaro era investigado por ter recebido joias e outros objetos de valor da Arábia Saudita sem respeitar os trâmites legais.
Em alguns momentos, Alckmin também atuou como médico, como na vez em que prestou socorro a um homem durante um evento político em Manaus em 2024. No ano anterior, chegou a vacinar Lula em um evento sobre a Campanha Nacional de Imunização.
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Carreira política
Seu primeiro mandato foi como vereador pelo MDB em Pindamonhangaba (1972-1976), que abriu o caminho de uma carreira política que ascendeu rapidamente. Logo na estreia, Alckmin assumiu a presidência da Câmara dos Vereadores.
Na eleição seguinte, foi eleito prefeito (1976-1982), tomando posse com apenas 24 anos, o mais jovem na chefia do Executivo na história da cidade.
Foi também deputado estadual (1983-1987) e deputado federal (1987-1995). Na Câmara dos Deputados, foi colega de Lula e atuou como constituinte — como são chamados os parlamentares que integraram a Assembleia Nacional Constituinte responsável por redigir a Constituição de 1988.
Na Câmara, dedicou-se a projetos ligados à saúde e à Previdência Social. Foi integrante da Comissão de Ordem Social e da Subcomissão de Saúde, Seguridade e do Meio Ambiente.
Pelo PSDB, partido que ajudou a fundar em 1988 e ao qual foi filiado por 33 anos, Alckmin também chegou ao mandato de vice-governador de São Paulo (1995-2001) na gestão Mario Covas.
No Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista, ganhou notoriedade ao comandar o estado por 14 anos. Assumiu a função pela primeira vez em 2001, com a morte de Covas, ficando até 2006. Voltou a governar o estado de 2011 até 2018. É o político que por mais tempo chefiou o Executivo de São Paulo desde a redemocratização.
Suas gestões em São Paulo enfrentaram críticas e denúncias sobre contratos estaduais, além de episódios marcantes como a crise hídrica no estado e paralisações do funcionalismo público.
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No âmbito da Justiça, Alckmin chegou a ser denunciado pelo Ministério Público de São Paulo por caixa dois, corrupção passiva e lavagem de dinheiro. As investigações basearam-se no depoimento de delatores, que afirmaram ter repassado recursos não declarados às campanhas do tucano ao governo de São Paulo em 2010 e 2014.
À época das denúncias, a defesa de Alckmin negou qualquer irregularidade ou ato de corrupção, sustentando que suas doações de campanha foram realizadas dentro da lei e que a vida pública do ex-governador sempre foi pautada pela ética e retidão.
Alckmin já disputou a Presidência da República duas vezes. Em 2006, quando perdeu no 2º turno para o atual presidente Lula, e, em 2018, quando ficou na quarta colocação — atrás do ex-presidente Jair Bolsonaro, do ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad e do ex-governador do Ceará Ciro Gomes.