Indiciado por queda de avião, dono da Voepass admite à PF que sabia de omissão de panes e que foi alertado pela Anac

  • 08/08/2026
(Foto: Reprodução)
José Luiz Felício Filho, presidente da Voepass, empresa aérea de Ribeirão Preto (SP) Divulgação/Voepass Em depoimento à Polícia Federal, o proprietário e presidente da Voepass, José Luiz Felício Filho, admitiu ter conhecimento de uma "cultura de omissão" no registro de falhas técnicas dentro da companhia aérea, investigada após a queda do voo 2283, em Vinhedo (SP), com a morte de 62 pessoas, em 2024. O empresário revelou aos investigadores que diretores da própria Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) já haviam feito alertas pessoais a ele, ao longo dos anos, sobre esse padrão de conduta dos pilotos, que evitavam formalizar problemas nos diários de bordo para não reter as aeronaves em solo. "[Felício] admitiu ter ciência da cultura de omissão de reportes de panes, revelando inclusive que diretores da Anac o alertaram pessoalmente sobre esse padrão de conduta dos pilotos ao longo dos anos", registrou o relatório da PF, ao término das investigações. A informação corrobora as conclusões do relatório final da Polícia Federal, que aponta omissão deliberada de registros de manutenção como um elemento central entre as causas do desastre aéreo. Diante das evidências de que a segurança era prejudicada em favor da disponibilidade da frota, mesmo com problemas como no sistema de degelo, a PF indiciou Felício Filho e outros 15 profissionais pelo crime de atentado contra a segurança do transporte aéreo, agravado pela morte de 62 pessoas. Entre os demais indiciados estão diretores de operações, manutenção e segurança, além de mecânicos e despachantes operacionais. 🔎 O atentado contra a segurança do transporte aéreo é previsto no artigo 261 do Código Penal. O crime ocorre quando alguém expõe a perigo uma aeronave ou dificulta, ou impede a navegação aérea. A pena prevista é de 2 a 5 anos de prisão. Se do fato resulta a queda ou destruição da aeronave, a pena passa para 4 a 12 anos. Se houver morte, a pena pode ser aplicada em dobro. A reportagem procurou a defesa de José Luiz Felício Filho e dos demais indiciados, mas não obteve um posicionamento até a última atualização desta notícia. Polícia Federal indicia 16 pessoas pelo acidente com o avião da Voepass em 2024 'Aeronave não deveria estar naquela condição', disse Felício Além de reconhecer a falha sistêmica na cultura organizacional, Felício Filho admitiu no inquérito que houve um erro grave no dia da tragédia. Durante sua oitiva em 4 de agosto de 2026, ele reconheceu expressamente os problemas com o avião, embora tenha ressaltado que a viagem não deveria ter acontecido. "A aeronave não deveria estar naquela condição, mas também não deveria ter sido despachada para aquela rota." Na data do acidente, a aeronave PS-VPB decolou com falhas conhecidas no sistema de degelo para uma região com previsão confirmada de formação de gelo severo. Avião ATR-72 da Voepass, antiga Passaredo Linhas Aéreas, em Ribeirão Preto, SP Divulgação Em sua defesa, o empresário tentou distanciar a alta gestão do núcleo operacional, alegando que a diretoria de segurança operacional, liderada por David Faria, trabalhava de maneira "apartada" das decisões diárias tomadas pelos gerentes do Centro de Controle Operacional (CCO) e de Manutenção (MCC). No entanto, a PF ressaltou que Felício Filho, por ser piloto de formação, tinha plena consciência técnica da vulnerabilidade do modelo ATR-72 sobre as condições de gelo e era o destinatário formal das notificações de irregularidade enviadas pela Anac. LEIA TAMBÉM José Luiz Felício Filho: quem é o dono da Voepass indiciado por desastre aéreo que matou 62 pessoas De pilotos ao dono da Voepass: entenda cadeia de responsabilidades que levou PF a indiciar 16 pessoas por queda de avião Acidente da Voepass: quem são os indiciados pelo desastre aéreo com 62 mortos no interior de São Paulo Acidente da Voepass: PF indicia 16 funcionários e ex-funcionários pela queda que matou 62 Arte mostra quem são os 16 indiciados pela Polícia Federal após queda do voo 2283 em Vinhedo (SP). Arte/g1 O desastre aéreo e o fim das atividades da Voepass O desastre aéreo com o voo 2283 ocorreu em 9 de agosto de 2024, quando a aeronave caiu em um condomínio em Vinhedo (SP), matando todos os 58 passageiros e 4 tripulantes a bordo. As investigações da Polícia Federal e as conclusões técnicas do Cenipa apontam que a causa do acidente foi a perda de controle em voo, decorrente do acúmulo de gelo, da inoperância do sistema de degelo da estrutura e da não execução imediata dos procedimentos de emergência pela tripulação. Após a tragédia, a Voepass entrou em colapso operacional. Em março de 2025, a Anac determinou a suspensão cautelar de todas as operações da empresa após identificar a persistência de falhas estruturais e a degradação dos sistemas de gestão de segurança. Meses depois, em junho de 2025, a agência reguladora cassou definitivamente o Certificado de Operador Aéreo (COA) e o Certificado de Organização de Manutenção (COM) da companhia. Atualmente, as atividades da empresa estão encerradas e o grupo lida com processos de reestruturação para quitar dívidas milionárias, incluindo débitos trabalhistas. PF afirma que os 16 indiciados pela queda do avião da Voepass atentaram contra a segurança do transporte aéreo Jornal Nacional/ Reprodução O que diz a Voepass A VOEPASS informa que a segurança operacional sempre foi sua prioridade. Ao longo de mais de 30 anos de atuação na aviação brasileira, a companhia adotou rigorosamente todos os protocolos de segurança, manutenção e capacitação de tripulações previstos pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). A empresa reforça que sua atuação sempre esteve pautada pelos mais elevados padrões de segurança da aviação, contando, desde 2012, com a certificação IOSA (IATA Operational Safety Audit), concedida pela Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) às companhias aprovadas em rigorosa auditoria internacional de segurança operacional. Os treinamentos de pilotos contemplavam os procedimentos previstos para o enfrentamento de condições de formação de gelo, incluindo medidas como alteração de altitude e velocidade, conforme as orientações do fabricante da aeronave e os protocolos operacionais aplicáveis. As tripulações eram permanentemente orientadas a cumprir rigorosamente esses procedimentos, de acordo com cada cenário operacional. A tripulação do voo 2283 era composta por profissionais experientes, devidamente habilitados e certificados, que somavam mais de 5 mil horas de voo, com treinamentos técnicos, certificações e avaliações médicas regularmente atualizados, sem qualquer registro prévio que comprometesse sua aptidão para o exercício da função. Desde o início das investigações, a VOEPASS colaborou integralmente com as autoridades, disponibilizando documentos, diários de bordo, registros operacionais e relatórios técnicos ao Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) e à Polícia Federal. A companhia compreende que o relatório da Polícia Federal integra a fase investigatória e aguardará os próximos desdobramentos processuais, e, se for o caso, exercerá plenamente seu direito de defesa, nos termos da legislação vigente. A VOEPASS reitera sua solidariedade às famílias das vítimas e reafirma que permanece à disposição das autoridades, das instituições competentes e dos demais agentes envolvidos para prestar todos os esclarecimentos necessários. José Luiz Felício Filho, indiciado no inquérito da PF sobre a queda do voo 2283 da Voepass Reprodução Veja mais notícias da região no g1 Ribeirão Preto e Franca

FONTE: https://g1.globo.com/sp/ribeirao-preto-franca/noticia/2026/08/08/indiciado-por-queda-de-aviao-dono-da-voepass-admite-a-pf-que-sabia-de-omissao-de-panes-e-que-foi-alertado-pela-anac.ghtml


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