Interior de SP foi 'berçário' de crocodilomorfos entre 90 e 70 milhões de anos atrás, aponta estudo
27/02/2026
(Foto: Reprodução) Interior de SP foi 'berçário' de crocodilomorfos entre 90 e 70 milhões de anos atrás
Durante o período Cretáceo Superior, crocodilomorfos escolheram o que hoje é Presidente Prudente (SP) como "berçário". Três ninhadas com o total de 83 ovos fósseis, as maiores até então registradas no mundo para o grupo, foram documentadas em um estudo de mestrado liderado pela paleontóloga prudentina Giovanna Moraes Xavier da Paixão, a partir de escavações coordenadas pelo paleontólogo Willian Roberto Nava na cidade.
Os fósseis foram descobertos entre 2020 e 2022, no Sítio Paleontológico José Martin Suarez, no Parque dos Girassóis. Formado há cerca de 87 milhões de anos, o sítio preservou, sob camadas de sedimentos, uma fauna diversa que incluía crocodilomorfos, aves, tartarugas, peixes e dinossauros carnívoros, no fim da "Era dos dinossauros", quando a região integrava a Bacia Bauru.
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Com idade estimada entre 90 e 70 milhões de anos, o conjunto de ovos fósseis oferece evidências inéditas sobre o comportamento reprodutivo desses animais.
🔎 Na geologia e na paleontologia, os períodos são apresentados do mais antigo para o mais recente. Por isso dizemos "entre 90 e 70 milhões de anos atrás": 90 milhões indica um tempo mais distante no passado, e 70 milhões, um momento mais recente, mesmo que o número 90 seja maior.
Ninhos fósseis atribuídos a crocodilomorfos descobertos em Presidente Prudente
Giovanna Paixão/Arquivo pessoal
Descoberta das ninhadas
Em entrevista ao g1, o pesquisador e paleontólogo Willian Roberto Nava, de Marília (SP), lembrou que a primeira ninhada foi descoberta em 2020. "Nós [Willian e Giovanna] conseguimos, com paciência e determinação, perceber que ali havia uma ninhada de ovos", contou.
Foram alguns dias de trabalhos de escavação para a retirada do material. Neste primeiro grupo, foram identificados cerca de 20 ovos preservados. Durante essa mesma ação, foram encontradas cascas de ovos e evidências de outros fósseis, como mandíbula de lagartos e outros ossos ainda indeterminados.
Willian Nava e Giovanna Paixão, em 2020, nas escavações que revelaram a primeira ninhada
Willian Nava/Arquivo pessoal
No ano seguinte, Nava voltou a Presidente Prudente para novas escavações no ponto onde já havia sido encontrada a primeira ninhada. "Em 2021, eu aluguei um trator. Pedi para ele passar a lâmina com cuidado e não aprofundar muito na rocha, e, nesse trabalho, eu percebi outras evidências de ovos não tão longe de onde estava a ninhada de 2020", contou.
Ao verificar, foi possível constatar a presença de outra ninhada, esta com 47 ovos de crocodilo. "Eram mais de 40, e como tirar um bloco desse tamanho, com cerca de 80 centímetros de comprimento, em segurança?", lembrou.
Nava e Giovanna trabalharam manualmente nas escavações e dividiram a ninhada em blocos para levar até Marília, onde foi remontada no Museu de Paleontologia da cidade para análise.
Ninhada formada por mais de 45 ovos foi localizada em 2021
Willian Nava/Arquivo pessoal
Em 2022, um trabalho de escavação com Nava e uma equipe formada por pesquisadores do Rio de Janeiro, Brasília, Argentina e Estados Unidos da América localizou a terceira ninhada. Veja no vídeo no início da reportagem.
"Essa ninhada tinha uma quantidade menor de ovos e eles não estavam tão bem preservados quanto as de 2021 e 2020, mas, de qualquer forma, estavam próximas das outras duas, indicando que ali nós tínhamos, possivelmente, um ambiente de postura de ovos de crocodilomorfos", contou Nava ao g1.
Pesquisadores nacionais e internacionais participaram de escavação que descobriu a terceira ninhada, em 2022
Willian Nava/Arquivo pessoal
Como não havia a presença efetiva de nenhum osso de crocodilo próximo das ninhadas, ainda não foi possível indicar a espécie de crocodilo que depositou aqueles ovos. No entanto, os pesquisadores já identificaram que os ovos pertenciam a um grupo de crocodilos primitivos conhecidos como Notosuchia.
"Eram crocodilos de pequeno a médio porte, que incluíam algumas espécies já descritas, incluindo aqui em Marília. Nós temos duas espécies de crocodilos desse grupo, que são o Baurusuchus e Mariliasuchus", explicou Nava.
O material recolhido foi levado para o Museu de Paleontologia de Marília para uma primeira análise por Willian Nava e, depois, parte dele foi preparada para os estudos de Giovanna.
Análises e descobertas
Após a retirada e transporte do material, começou a etapa mais longa da pesquisa: a análise laboratorial. Por cerca de dois anos, a paleontóloga prudentina Giovanna Moraes Xavier da Paixão aprofundou os estudos e análises dos materiais descobertos para o seu mestrado em paleontologia pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa), em São Gabriel, no estado do Rio Grande do Sul.
O artigo foi publicado neste mês em uma revista científica internacional, o Journal of Vertebrate Paleontology (JVP).
Para a análise dos ovos, foram empregados diferentes métodos, incluindo tomografia computadorizada de alta resolução de exemplares isolados, microscopia eletrônica de varredura e petrografia de lâminas delgadas, permitindo identificar estruturas microscópicas das cascas.
Ao g1, Giovanna explicou que o trabalho contou com 10 coautores, que colaboraram de diversas formas, entre elas na realização de análises com o uso do Microscópio Eletrônico de Varredura (MEV) e do micro-CT, uma espécie de "raio-X" de alta precisão usado para visualizar a estrutura interna dos ovos.
Como o equipamento comporta apenas materiais pequenos, não foi possível escanear os ninhos completos, apenas alguns ovos individualmente. A equipe, no entanto, pretende analisar todos os exemplares futuramente.
O estudo envolveu duas frentes principais:
Análise macro, que investiga a arquitetura dos ovos, a forma de deposição e os aspectos tafonômicos (como e em que ambiente foram depositados);
Análise micro, focada na ultraestrutura da casca, como espessura e características microscópicas, examinadas com equipamentos de alta precisão.
Todo esse processo foi importante para identificar a que grupo pertenceu a ninhada, pois, embora já houvesse registros de crocodilomorfos na região e o formato elipsoide e simétrico, além do tamanho dos ovos, reforçassem essa associação, ainda não era possível estabelecer uma diagnose precisa.
"A diagnose veio mesmo do estudo da ultraestrutura das cascas", afirmou a paleontóloga.
Giovanna Paixão e Willian Nava, em 2020, após descoberta de um dos ninhos no Sítio Paleontológico José Martin Suarez
Giovanna Paixão/Arquivo pessoal
Comportamento dos crocodilos
Em entrevista ao g1, Giovanna destacou que as ninhadas de 15, 21 e 47 ovos são compostas por grupos de ovos muito superiores aos que normalmente são encontrados no Brasil e no mundo.
"Então, essas são as maiores ninhadas de crocodilomorfos já encontradas no mundo, que, geralmente, a gente encontra ali no máximo algo em torno de cinco, seis ovos", celebrou Giovanna.
Conforme a pesquisadora, esse número superior de prole também revela uma diferença comportamental da espécie, que costumava ser classificada como animais que colocavam uma prole reduzida e com maior cuidado parental para adaptação.
"Geralmente, animais que colocam prole reduzida estão associados a ambientes de escassez de recursos. Como esses animais colocavam um número maior dessa prole, a gente já associa que eles estavam mais adaptados ao ambiente, que tinham uma disponibilidade de recursos maior e que não tinham tanto cuidado parental, apesar de crocodilos e dinossauros serem bem conhecidos por serem boas mães", explicou.
Além disso, a análise microscópica das cascas revelou uma alta densidade de poros, que pode ser associada a um ambiente mais úmido.
A pesquisadora explicou que esses poros, distribuídos de forma aleatória entre as unidades da casca, são responsáveis pelas trocas gasosas e pela respiração do embrião. A maior porosidade teria favorecido as trocas gasosas e o equilíbrio osmótico entre o interior do ovo e o meio externo.
Outra descoberta interessante feita pelos pesquisadores com base na estrutura foi a diferença da postura dos ovos dentro do próprio táxon.
Giovanna explicou que os ninhos fósseis têm formas bem diferentes. A ninhada de 21 ovos é compatível com o comportamento de crocodilos atuais, que costumam cavar um buraco, enfiar os ovos dentro e cobri-los com algum material. Já a ninhada com 47 ovos está toda plana, em um nível só, possibilitando constatar duas principais direções de postura.
"Então, como para uma fêmea, provavelmente, colocar os ovos em duas direções diferentes era um gasto energético muito grande, a gente acredita que aquele ninho pode ter sido usado por mais de uma fêmea ou, então, uma mesma fêmea colocou os ovos em dois eventos diferentes", contou.
Arte demonstra como seria o local da descoberta milhões de anos atrás
Lautaro Rodriguez Blanco/Fundación Félix de Azara
Evolução
Segundo Giovanna, ao estudar a evolução de espécies anteriores e traçar paralelos com o cotidiano, é possível compreender melhor como a humanidade evolui, interage com o ambiente e pode se preparar para eventos globais que impactam a vida no planeta.
Desta forma, o estudo assinado por Giovanna Paixão, Agustín Martinelli, Júlio Marsola, E. Martín Hechenleitner, William Nava, Luis Chiappe, Eduardo Jussiani, Sebastián Rozadilla, Jonatan Kaluza e Felipe Pinheiro traz descobertas relevantes para a paleontologia e o que já era conhecido sobre os crocodilomorfos.
"Temos ali uma evidência bastante significativa, muito interessante, de um depositário, vamos dizer assim, um quase 'berçário' de ovos de crocodilomorfos", destacou Willian Nava.
Como líder do estudo do mestrado, Giovanna ressaltou a satisfação em colaborar com as descobertas e ter a confiança de todos os pesquisadores envolvidos em cada passo.
Já como prudentina nata, Giovanna confessou ao g1 que sempre foi apaixonada por paleontologia e dinossauros, mas só percebeu a real dimensão da riqueza fossilífera de Presidente Prudente quando passou a acompanhar as escavações de William no sítio próximo à sua casa. A experiência representou a realização de um sonho e despertou nela o desejo de mostrar à população o quanto a região é rica e relevante no contexto paleontológico.
"Esse trabalho não é só o trabalho da minha vida por conta dos materiais que eu trabalhei, mas porque eles vieram da minha casa, né? Então, tem um apelo sentimental para mim também nesse sentido", destacou ao g1.
William Nava acrescentou que o achado comprova a relevância da área, antes vista como um terreno sem importância, mas que escondia um tesouro de milhões de anos.
O paleontólogo destaca o privilégio de ter revelado os primeiros indícios fósseis em 2004 e de ter mantido as escavações ao longo dos anos, e lembra que o local também ganhou notoriedade pela descoberta de fósseis de Enantiornithes, grupo de aves do Mesozóico, considerado elo evolutivo entre formas primitivas e modernas.
Trabalho com apoio de trator em agosto de 2020 no sítio paleontológico, que fica no Parque dos Girassóis, em Presidente Prudente
Stephanie Fonseca/g1
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