Juros altos, crédito caro e marketplaces: os choques que pressionam o varejo brasileiro
17/08/2026
(Foto: Reprodução) Grupo Casas Bahia entra com pedido de recuperação judicial
Casas Bahia, Marabraz, Americanas, GPA e Marisa estão entre as grandes empresas do varejo brasileiro atingidas por crises financeiras nos últimos anos, com impactos que vão de reestruturações e fechamento de lojas a processos de recuperação.
De móveis e eletrodomésticos a alimentos e roupas, os casos são diferentes, mas ajudam a revelar uma pressão que atravessa o setor: o dinheiro ficou mais caro justamente quando a forma de vender e competir também mudou.
🗒️ Tem alguma sugestão de reportagem? Envie para o g1
Juros elevados e crédito caro reduzem o espaço das famílias para parcelar compras e, ao mesmo tempo, encarecem as dívidas e o funcionamento das empresas.
Enquanto isso, marketplaces, comércio eletrônico e concorrência internacional aumentam a disputa por preços e reduzem o espaço para as empresas ganharem em cada venda, além de exigir investimentos em tecnologia e logística.
Nesse cenário, ficam mais vulneráveis as empresas que geram pouco dinheiro com a própria operação, acumulam estoques, mantêm estruturas físicas caras ou têm dívidas difíceis de pagar.
O primeiro choque: o crédito caro chega ao consumidor
Uma parte importante dessa pressão começa no bolso das famílias.
Quando a taxa básica de juros está alta, o custo do dinheiro também tende a subir. A Selic, que serve de referência para as demais taxas da economia, está em 14% ao ano. Isso contribui para encarecer o crédito oferecido a consumidores e empresas.
🔎 Na prática, os juros tornam as compras parceladas mais caras e podem levar o consumidor a adiar a aquisição de produtos de maior valor. Quanto maior o preço e mais longo o prazo, maior tende a ser o custo final. É o que torna categorias como móveis e eletrodomésticos especialmente sensíveis ao crédito.
O Relatório de Economia Bancária (REB), do Banco Central, mostra que as taxas de crédito no Brasil dificultam que as famílias distribuam uma compra ao longo de vários meses.
O impacto é maior entre as famílias de menor renda, que enfrentam juros mais altos e, por isso, têm menos espaço para financiar bens de maior valor. E quando o consumidor adia uma compra, o efeito chega ao varejista.
📉 A loja vende menos e, se precisar oferecer condições de pagamento mais vantajosas para manter as vendas, pode demorar mais para receber ou ter de pagar para antecipar esse dinheiro.
📈 Enquanto isso, despesas como salários, aluguel, fornecedores, impostos e juros continuam correndo.
Em outras palavras, o problema não é apenas a queda nas vendas. É quando as vendas deixam de se converter em caixa suficiente para bancar as despesas do dia a dia.
Segundo Bruno Medeiros Durão, especialista em Direito Bancário e Tributário, a diferença está justamente aí.
“Muitas empresas olham apenas para o faturamento e esquecem que existe uma diferença enorme entre vender muito e gerar caixa.”
Comércio varejo loja Natal RN
Inter TV Cabugi/Reprodução
Juros altos não atingem todos da mesma forma
Ainda assim, o varejo não vive uma crise uniforme.
Os segmentos que dependem mais de crédito tendem a sentir primeiro a perda de ritmo da economia, enquanto aqueles menos dependentes de financiamento podem ser afetados de outra maneira.
É uma distinção também observada pelo Genial Investimentos, que relaciona a desaceleração da economia a uma taxa de juros “significativamente contracionista” e aponta perda de fôlego justamente nos segmentos mais ligados ao crédito.
Isso ajuda a explicar por que o mesmo cenário econômico pode ter efeitos tão diferentes sobre as empresas.
Uma varejista que depende de vendas parceladas, mantém estoques elevados e tem uma grande rede de lojas, por exemplo, pode enfrentar uma combinação particularmente difícil: consumidores comprando menos, dívidas mais caras e despesas que continuam mesmo quando as vendas caem.
🚨 Nesse cenário, a dívida deixa de ser apenas um problema financeiro e passa a afetar o funcionamento da própria empresa.
O segundo choque: mudou a forma de vender e competir
Ao mesmo tempo em que enfrenta o crédito caro, o varejo passa por outra transformação: o consumidor ganhou mais opções para comparar preços e comprar.
Marketplaces e plataformas digitais aumentaram a concorrência entre vendedores e ampliaram o acesso a produtos nacionais e estrangeiros.
Para competir nesse ambiente, porém, não basta colocar produtos em uma loja virtual. É preciso investir em sistemas para acompanhar estoques, tecnologia e estruturas capazes de fazer as entregas chegar ao consumidor com rapidez.
Segundo o geógrafo Igor Venceslau, no artigo "Digitalização do território brasileiro e comércio eletrônico: os serviços informacionais na divisão territorial do trabalho", o comércio eletrônico exige justamente esse conjunto de sistemas de informação, gestão de estoques e estruturas logísticas.
Em relatório, analistas do BTG Pactual também destacam a importância de integrar lojas físicas e canais digitais e de fortalecer a presença das empresas no ambiente online.
Nas Casas Bahia, o canal online, em parceria com o Mercado Livre, foi apontado como uma das principais “alavancas” para fazer o negócio crescer.
Ao mesmo tempo, a empresa anunciou o fechamento de 298 unidades, cerca de 29% da rede, como parte da tentativa de reduzir custos e redimensionar a operação.
Já o pesquisador Paulo Nassar, em "Cotidiano e memória coletiva no varejo", apresenta um contraponto: durante a crise de confiança da Americanas provocada pela fraude contábil, as vendas digitais sofreram uma queda muito maior que as das lojas físicas.
Isso sugere que a presença física pode funcionar como elemento de confiança e resiliência em determinados momentos.
A questão, portanto, não é simplesmente ter ou não ter lojas. É manter uma estrutura — física e digital — compatível com o volume de vendas e com a capacidade de gerar dinheiro para sustentar a operação.
Quando a crise exige mudanças na operação
A combinação desses fatores ajuda a explicar por que algumas empresas conseguem atravessar períodos de pressão, enquanto outras precisam cortar custos, reduzir operações, renegociar dívidas ou, nos casos mais graves, buscar proteção judicial.
Inclusive, a recuperação judicial não acontece de uma hora para outra.
“Quando uma empresa chega a uma recuperação judicial, normalmente estamos falando de uma dificuldade que foi se acumulando”, afirma Letícia Rocha Carneiro, advogada tributarista.
🔎 A recuperação judicial é um mecanismo previsto na legislação brasileira que permite às empresas com dificuldades financeiras renegociar suas dívidas sob supervisão da Justiça. O objetivo é evitar a falência, preservar empregos e permitir que a companhia continue operando enquanto busca reequilibrar suas contas. (veja mais aqui sobre a recuperação judicial)
Nas Casas Bahia, por exemplo, a crise é associada a juros altos, crédito restrito e aumento dos custos financeiros. O fechamento de lojas faz parte das medidas adotadas pela empresa para reduzir custos e redimensionar a operação.
Mas a recuperação judicial, por si só, não torna uma empresa saudável. O processo pode reorganizar as dívidas e dar tempo para a companhia se reestruturar, mas é o próprio negócio que precisa voltar a gerar dinheiro para sustentar a operação.
“Recuperação judicial apenas ‘compra tempo’”, afirma Marcos Pelozato, advogado e contador. Para ele, o sucesso depende da capacidade de a empresa voltar a gerar caixa de forma sustentável e trabalhar com margens saudáveis.
A mesma lógica aparece em outras reestruturações do varejo.
O BTG cita Azzas/Hering, Grupo SBF, CVC e Casas Bahia entre as empresas que adotaram medidas como redução de custos, controle de estoques e busca por maior geração de caixa.
No fim, as empresas mais vulneráveis são aquelas que precisam fazer essa adaptação enquanto lidam com pouco dinheiro gerado pela própria operação, estoques elevados, estruturas físicas caras ou dívidas difíceis de administrar.
“O pedido de recuperação judicial representa um momento crítico, mas não é uma sentença de morte para a empresa”, resume Letícia.
Segundo ela, o que vem depois é a parte mais difícil: provar que, com menos dívida e uma operação reorganizada, ainda existe um negócio capaz de gerar caixa.