Na COP17, ciência brasileira debate restauração da Caatinga e combate à desertificação

  • 24/08/2026
(Foto: Reprodução)
Professor e pesquisador da Univasf, Renato Garcia Rodrigues, na COP17 em Ulaanbaatar, Mongólia. Maristela Crispim/ Arquivo pessoal A restauração da Caatinga, a conservação da biodiversidade e o fortalecimento das ações ambientais estão entre os temas presentes nos debates da COP17, acompanhados pelo g1 em Ulaanbaatar, Mongólia. No Pavilhão Brasil, a Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) participa das discussões sobre desenvolvimento sustentável, regularização ambiental e restauração da Caatinga. No Sertão de Pernambuco, a universidade mantém, há cerca de 18 anos, projetos de pesquisa, monitoramento e recuperação ambiental no Núcleo de Desertificação de Cabrobó. COP17: agricultura familiar ganha espaço no debate sobre desertificação; no Sertão de PE, práticas conciliam produção e recuperação do solo COP17 na Mongólia: veja como debate sobre desertificação se conecta à realidade do Sertão de PE 📱:Baixe o app do g1 para ver notícias de Petrolina e Região em tempo real e de graça Um dos painéis apresentados na programação do Pavilhão Brasil foi “Environmental Licensing as a Tool to Drive Sustainable Development” (“Licenciamento Ambiental como Ferramenta para Promover o Desenvolvimento Sustentável”). O painel teve como um dos participantes Renato Garcia Rodrigues, professor e pesquisador das áreas de ecologia e conservação da Univasf, que conversou com o g1 Petrolina durante a COP17, em Ulaanbaatar. A atividade tratou da experiência dos programas ambientais desenvolvidos para o Projeto de Integração do Rio São Francisco. Renato também apresentou outro painel na COP17, intitulado “From Environmental Regularization to Restoration at Scale: Strengthening Institutional Capacity to Combat Desertification in the Caatinga” (“Da Regularização Ambiental à Restauração em Escala: Fortalecendo a Capacidade Institucional para Combater a Desertificação na Caatinga”). A atividade teve a Univasf e o Núcleo de Ecologia e Monitoramento Ambiental (NEMA) entre os proponentes e abordou a restauração em escala e o fortalecimento institucional para o combate à desertificação na Caatinga. (A repórter Diana Silva viajou para o evento a convite do Instituto ClimaInfo) Núcleo de Ecologia e Monitoramento Ambiental (NEMA) da Univasf Arquivo/Univasf As discussões levadas pela universidade à COP17 se relacionam com uma atuação que já é desenvolvida no Sertão pernambucano. A Univasf atua na região de Cabrobó desde 2008, inicialmente na parte ambiental da obra do Projeto de Integração do São Francisco. A atuação começou em Cabrobó e também em Floresta, nos dois primeiros trechos onde a universidade passou a trabalhar. Cabrobó está inserido em um Núcleo de Desertificação e apresenta elevada aridez, ao mesmo tempo em que ainda possui áreas de vegetação conservada, de acordo com Renato. A presença da universidade nesse território inclui ações de monitoramento e recuperação de áreas degradadas, temas que também aparecem nas discussões sobre restauração da Caatinga e combate à desertificação realizadas durante a COP17. Ao longo desse período, que já soma entre 17 e 18 anos, a universidade desenvolveu ações de resgate de germoplasma, com coleta de plantas vivas e sementes, além do resgate de fauna e do monitoramento de áreas. O trabalho envolve diferentes núcleos e centros de pesquisa da universidade. Na região de Cabrobó, a universidade mantém parcelas permanentes para o monitoramento da vegetação. Também existem áreas de recuperação ao longo do trecho da obra, totalizando 2.000 hectares, além de uma área experimental de aproximadamente 80 hectares às margens do Rio São Francisco, na região da captação do Projeto de Integração, onde são desenvolvidos experimentos de restauração. Imagem mostra índice de aridez Reprodução A área reúne diferentes estratégias de recuperação. Entre elas estão o plantio de núcleos, o plantio de área total, o plantio de sementes em áreas de algaroba e o plantio de núcleos de árvores com corte seletivo da espécie. A algaroba, uma espécie invasora, também é objeto dos experimentos desenvolvidos pela universidade. Uma das estratégias utilizadas é selecionar espécies que são menos consumidas pelos bodes e outras que são mais procuradas pelos animais. As mudas que precisam de maior proteção são plantadas em núcleos e protegidas com a própria galharia da algaroba retirada durante o controle da área. A estratégia considera também as condições do solo. Em uma área degradada tomada pela algaroba, a vegetação existente ainda oferece sombra e cobertura ao solo. Por isso, retirar todas as plantas de uma vez poderia deixar o terreno exposto, aumentar a temperatura do solo, favorecer o carreamento de sedimentos pela chuva e comprometer a microbiota associada às raízes. “A gente chega numa área degradada, cheia de algaroba. É um problema, só que você tem cobertura vegetal. O solo tá sombreado, então ele não tá solo exposto.” O manejo da algaroba desenvolvido em Cabrobó ajuda a aproximar do Sertão pernambucano um dos temas presentes nos debates acompanhados pelo g1 na COP17: a recuperação de áreas degradadas em regiões de terras secas. A espécie merece atenção porque apresenta dificuldade de controle, especialmente em áreas degradadas próximas a riachos intermitentes. Ao mesmo tempo, há áreas em que agricultores não permitem que ela seja retirada. “Então, a algaroba realmente é uma espécie que merece atenção, porque ela é difícil de controle. Agora, é uma espécie que traz vários benefícios para os moradores locais”. Na avaliação do pesquisador, a recuperação da Caatinga pode contribuir para reverter esse processo. Há áreas em Cabrobó em que a vegetação nativa mais conservada não apresenta a mesma presença de algaroba. A partir dessa observação, a universidade trabalha com a possibilidade de diminuir a presença da espécie à medida que a Caatinga é recuperada. Os estudos desenvolvidos pela universidade também revelaram uma diversidade de espécies que ajuda a dimensionar a importância da conservação dessas áreas. Ao todo, foram identificadas 1.630 espécies, entre árvores, ervas, arbustos, lianas e trepadeiras, subarbustos, palmeiras e outras formas de vida. Ao longo de toda a área do Projeto de Integração do São Francisco, foram identificadas 10 espécies novas. Duas foram descritas e publicadas em parceria com pesquisadores do NEMA: Orthophytum alagoanum Leme & A.P. Fontana e Pleurophora pulchra J.A. Siqueira, V.M. Cotarelli, J.F.B. Pastore & T.B. Cavalcanti. Uma terceira, Sida sp., está em fase de descrição e já foi citada em resumos da SBPC de 2025. Outras sete espécies já foram publicadas em trabalhos que citam material doado pelo NEMA. A primeira espécie nova foi encontrada na região das serras de Catuleiras, por volta de 2010 ou 2011, de acordo com a estimativa de Renato. Trata-se de uma pequena espécie herbácea que nasce nas pedras e apresenta uma flor vermelha. O primeiro registro da espécie está guardado na universidade, e a descoberta ajudou a gerar subsídios para a unidade de conservação Serra de Catuleiras. Espécie herbácea que nasce nas pedras e apresenta uma flor vermelha. Arquivo/ Univasf A conservação da biodiversidade é outra frente que aproxima o trabalho desenvolvido no Sertão dos debates sobre restauração e combate à desertificação presentes na COP17. Os resultados dos estudos contribuíram para a criação de uma unidade de conservação na região de Cabrobó. A proposta foi apresentada ao governo de Pernambuco pela universidade e, depois de estudos e articulações, resultou na criação do Refúgio de Vida Silvestre Serras Catingueiras, em 2019. Com mais de 20 mil hectares de áreas de serras, a unidade é a segunda maior de proteção integral estadual de Pernambuco. A unidade de conservação envolve as áreas das serras da Bananeira, Monte Santo e Livramento. A criação ocorreu no contexto das medidas compensatórias relacionadas ao Projeto de Integração do São Francisco. O projeto tinha uma exigência do Ibama para a indicação de áreas destinadas à conservação. A universidade participou não apenas da proposição da área, mas também dos estudos e das articulações que contribuíram para que a unidade fosse criada. A atuação da Univasf em Cabrobó também envolve as comunidades locais. Existem trabalhos da universidade junto à população, incluindo o Projeto Quilombolas nas Serras Catingueiras. A instituição também atua junto às comunidades indígenas Trukás da região, inclusive com sementes e apoio na escola. A rede de sementes da universidade ainda fornece material para o município, utilizado na arborização da cidade. O balanço dos quase 18 anos de atuação da Univasf na região é positivo, na avaliação de Renato. Cabrobó se tornou um laboratório de estudos para a universidade e, apesar de estar inserido em um núcleo de desertificação e apresentar elevada aridez, possui áreas de vegetação ainda bem conservada. Bioma Caatinga sofre um histórico e sistemático processo de invisibilização. Univasf/arquivo A experiência de Cabrobó também passou a fazer parte da formação de estudantes. Há alunos da região que estudaram na universidade e depois retornaram para trabalhar no próprio território. A continuidade dos estudos é uma das perspectivas apontadas para os próximos anos. A área experimental localizada na região da captação do Projeto de Integração do São Francisco possui monitoramento contínuo e atividades previstas anualmente. A universidade também pretende manter a busca por conhecimento sobre o território e a atuação junto às comunidades. “Então, a busca de conhecimento proveniente daquele território não vai parar, continua.” A experiência da Univasf mostra, a partir do território do Núcleo de Desertificação de Cabrobó, como temas discutidos na COP17, como restauração da Caatinga, conservação da biodiversidade e recuperação de áreas degradadas, também fazem parte de pesquisas desenvolvidas há quase duas décadas no Sertão pernambucano. Enquanto, em Ulaanbaatar, especialistas e instituições discutem estratégias de restauração e combate à desertificação, no Sertão de Pernambuco pesquisas ajudam a revelar espécies, acompanhar a vegetação, testar formas de recuperação e ampliar as áreas destinadas à conservação. Esta é a terceira reportagem da série especial do g1 Petrolina sobre a COP17 e a relação entre o debate internacional sobre desertificação e a realidade do Sertão de Pernambuco. Jornalista Diana Silva, do g1 Petrolina, vai cobrir a COP 17, na Mongólia

FONTE: https://g1.globo.com/pe/petrolina-regiao/noticia/2026/08/24/na-cop17-ciencia-brasileira-debate-restauracao-da-caatinga-e-combate-a-desertificacao.ghtml


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