O segredo para recuperar florestas pode estar no olfato dos morcegos

  • 19/10/2026
(Foto: Reprodução)
O segredo para recuperar florestas pode estar no olfato dos morcegos juanmoya2000 / iNaturalist O cheiro de frutas maduras pode se tornar um aliado na recuperação de florestas degradadas. Pesquisadores descobriram que aromas extraídos de frutos conseguem atrair morcegos para áreas abertas, onde esses animais podem contribuir para a regeneração da vegetação ao espalhar sementes. 📱 Acompanhe o Terra da Gente também no Instagram A estratégia é investigada há mais de duas décadas por cientistas ligados à Embrapa Florestas e a outras instituições. Os experimentos demonstraram que é possível atrair morcegos frugívoros, aqueles que se alimentam de frutos, utilizando apenas substâncias aromáticas, sem oferecer alimento. Em uma publicação de novembro de 2025, os pesquisadores Gledson Bianconi, Lays Cherobim Parolin e Sandra Bos Mikich reuniram os avanços da tecnologia, considerada promissora para complementar métodos tradicionais de restauração florestal. VEJA TAMBÉM: Caso de homem atacado por morcego-vampiro é descrito pela ciência; entenda o comportamento Coruja aparece sobre imagem de santo e surpreende padre que coleciona 300 peças da ave Veja o que é destaque no g1, hoje: Agora no g1 O cheiro que atrai os morcegos Para encontrar frutos maduros, algumas espécies de morcegos utilizam principalmente o olfato. Foi essa capacidade que despertou o interesse dos pesquisadores. Em um experimento realizado em Fênix, no Paraná, a equipe instalou redes de captura em uma área agrícola, a 50 metros de um fragmento de Mata Atlântica. Morcego-Das-Frutas (Artibeus lituratus) nsalazar05 / iNaturalist Nas redes, foram colocados frutos artificiais. Alguns receberam óleos essenciais extraídos de frutos dos gêneros Piper e Ficus, enquanto outros receberam apenas água. Os resultados, publicados em 2007 na revista científica Biotropica, mostraram que os aromas atraíram significativamente mais morcegos frugívoros, especialmente da espécie Artibeus lituratus. Outro resultado chamou a atenção: quase metade dos morcegos capturados eliminou sementes nas fezes, indicando que os animais já haviam se alimentado antes de chegar ao local. "Esta técnica tem o potencial de incrementar a chuva de sementes em locais específicos, sendo particularmente promissora para projetos de restauração florestal", escreveram os pesquisadores no artigo. A chamada chuva de sementes é a chegada de sementes a determinado ambiente, transportadas pelo vento, pela água ou por animais. Estudo inédito mapeia o que faz a 'chuva de sementes' ser mais rica na Mata Atlântica Mata Atlântica em Mato Grosso do Sul Imasul Mais voos sobre áreas degradadas Um estudo posterior, publicado em 2012 na revista Restoration Ecology, aprofundou a investigação sobre o uso de óleos essenciais para atrair morcegos. Os pesquisadores compararam a atividade desses animais em pontos com atrativos aromáticos e em locais sem a aplicação dos óleos, entre agosto de 2006 e julho de 2007. Os resultados indicaram maior atividade de voo nos pontos com aromas, reforçando a possibilidade de direcionar os morcegos para áreas onde a chegada de sementes é desejável. O experimento, entretanto, não quantificou diretamente o aumento da dispersão de sementes. Por isso, os autores apresentaram a técnica como uma ferramenta com potencial para auxiliar a regeneração florestal. Pequenos animais, milhares de sementes Morcego-Das-Frutas (Artibeus lituratus) beto_ortiz_m / iNaturalist A importância dos morcegos para as florestas vai muito além dos experimentos com aromas. Um levantamento publicado pela Embrapa em 2015 identificou o consumo de mais de 140 espécies de plantas por morcegos frugívoros dos gêneros Artibeus, Carollia e Sturnira na Mata Atlântica. Entre os frutos consumidos estão os de árvores e arbustos pioneiros, plantas que ajudam a iniciar a recuperação da vegetação em ambientes alterados. Ao se deslocarem entre fragmentos florestais, os morcegos podem transportar sementes para longe das plantas de origem. Parte delas é eliminada durante o voo, inclusive sobre áreas abertas. Com base em dados de cinco espécies de morcegos em quatro parcelas de Mata Atlântica, os pesquisadores estimaram um potencial de dispersão entre 600 e 25.930 sementes por hectare por dia. Os números, porém, não representam uma quantidade fixa de sementes espalhadas diariamente. São estimativas calculadas a partir da frequência dos animais nas áreas estudadas e de parâmetros biológicos adotados pelos pesquisadores. A ciência por trás dos aromas Com o avanço das pesquisas, os cientistas passaram a investigar quais substâncias presentes nos frutos são responsáveis por atrair os morcegos. Em uma tese de doutorado defendida em 2017 na Universidade Estadual Paulista (Unesp), Lays Cherobim Parolin analisou a composição química dos óleos essenciais e o comportamento dos animais diante de diferentes compostos aromáticos. "Os nossos resultados mostram que os óleos essenciais de frutos consumidos pelos filostomídeos frugívoros compartilham compostos, mas os preferidos podem ser identificados por compostos-chave", escreveu a pesquisadora no resumo da tese. O trabalho também mostrou que os morcegos conseguem distinguir duas classes de substâncias presentes nos aromas: monoterpenos e sesquiterpenos, que desempenham funções diferentes na comunicação entre frutos e animais. Essas descobertas ajudam a compreender como os morcegos identificam seus alimentos e oferecem caminhos para o desenvolvimento de atrativos químicos destinados a projetos de restauração. Uma ajuda para a floresta voltar A proposta dos pesquisadores é utilizar os aromas em pontos estratégicos de áreas degradadas para aumentar a presença de morcegos dispersores e favorecer a chegada de sementes. A técnica pode ser especialmente interessante em locais próximos a fragmentos florestais, onde os animais encontram alimento e podem transportar sementes para áreas que precisam recuperar a vegetação. Em um trabalho publicado em 2005, Sandra Bos Mikich e Gledson Bianconi já apontavam possíveis aplicações na recuperação de matas ciliares e de áreas rurais. A publicação mais recente da Embrapa Florestas, de 2025, reúne os avanços obtidos desde os primeiros experimentos e apresenta a atração de morcegos como uma estratégia complementar ao plantio de mudas e a outras ações de restauração. Embora os estudos comprovem a atração dos animais pelos aromas, a recuperação efetiva da floresta depende de outras etapas, como a germinação das sementes, o estabelecimento das plantas e seu desenvolvimento ao longo do tempo. A técnica ainda exige avaliações sobre seus resultados em diferentes ambientes e condições de aplicação. Por enquanto, a ciência já demonstrou algo importante: o olfato que guia os morcegos até seus alimentos também pode ser explorado para favorecer a chegada de sementes a locais onde a floresta precisa voltar a crescer. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente

FONTE: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/noticia/2026/10/19/o-segredo-para-recuperar-florestas-pode-estar-no-olfato-dos-morcegos.ghtml


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