Professor transforma paixão pela astronomia em clube virtual no interior de SP: 'O laboratório é o céu'

  • 27/06/2026
(Foto: Reprodução)
Professor transforma paixão pela astronomia em clube virtual no interior de SP Há 12 anos, um estudante de física percebeu que havia pouca informação sobre astronomia disponível em português na internet. A partir disso, decidiu criar um espaço para compartilhar conhecimento e aproximar pessoas interessadas no tema. Assim nasceu o Clube de Astronomia Centauri, fundado pelo agora professor de física Rodrigo Raffa, de Itapetininga (SP). 📲 Participe do canal do g1 Itapetininga e Região no WhatsApp "Na educação básica, eu não tive tantas oportunidades de me aprofundar na astronomia. Fui conhecer essa ciência de verdade na faculdade. Quanto mais eu aprendia, mais percebia que existiam poucas informações disponíveis, principalmente em português. Na época, quase tudo era em inglês, desde conteúdos até informações sobre telescópios e aplicativos", conta Rodrigo. Ao g1, o professor conta que a iniciativa começou de maneira bem simples, reunindo amigos com o mesmo interesse. Para alcançar mais pessoas, Rodrigo criou uma página no Facebook. "Eu queria formar uma comunidade. Primeiro comecei divulgando informações e convidando as pessoas para participarem. A ideia era criar um clube que reunisse quem gostava de astronomia." Na hora de escolher o nome, ele buscou inspiração nas aulas da graduação. O nome de uma estrela chamou atenção de Rodrigo. "Lembro que estudávamos muito a estrela Proxima Centauri, a mais próxima do nosso Sistema Solar. Aquele nome me cativou, que é referente à constelação do Centauro, que também faz parte de um sistema estelar que tem três estrelas juntos, que é Alpha Centauri. Foi o primeiro e único nome que eu pensei", relembra. Em 2019, o professor de física encontrou uma réplica do Hubble na Alemanha Rodrigo Raffa/Arquivo pessoal Atualmente, fazem parte da equipe a mulher de Rodrigo, Isabela Almeida; Bruno Rogério Morais, servidor do Instituto Federal; Marco Centurion, mestrando em uma universidade de São Petersburgo, na Rússia; e o professor Lester Faria, doutor em engenharia aeroespacial pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), que atua como mentor do projeto. Além da equipe responsável pela organização, o Centauri reúne entre 60 e 80 participantes, que acompanham as atividades e colaboram com observações do céu, o que Rodrigo chama de "ciência cidadã". "A ciência cidadã acontece quando as pessoas registram um fenômeno e compartilham esse material com universidades, instituições de pesquisa ou clubes como o nosso. O céu do Brasil é muito grande e não temos equipamentos funcionando 24 horas por dia em todos os lugares. Esses registros são fundamentais para que possamos analisar o que aconteceu." Parte da equipe do Centauri, junto de colaboradores e parceiros durante o Torneio Centauri de Foguetes, evento anual do clube Rodrigo Raffa Rodrigo explica que a equipe do clube utiliza critérios científicos para analisar cada imagem recebida e esclarecer que nem toda "luz diferente" observada no céu representa algo incomum ou preocupante. "Nem tudo é alarmante. Muitas vezes conseguimos identificar que se trata de um meteoro, da passagem de um satélite, da Estação Espacial Internacional, de um planeta ou até de um fenômeno atmosférico. Nem sempre temos todas as respostas, mas fazemos essa análise com um olhar científico e mais criterioso." Rodrigo criou clube de astronomia virtual após perceber falta de conteúdo em português sobre o tema Centauri/Divulgação Os integrantes do Centauri receberam, em 2021, um certificado da Nasa por meio do programa Night Sky Network. De acordo com o clube, os membros contemplados com o certificado foram responsáveis por publicações, divulgações e traduções de artigos astronômicos enviados pela própria agência. Integrantes do Clube de Astronomia Centauri de Itapetininga (SP) são reconhecidos pela Nasa Reprodução/Centauri O céu de Itapetininga A localização de Itapetininga foi um dos fatores que motivou a criação do projeto. Segundo Rodrigo, por estar distante dos grandes centros urbanos, a cidade sofre menos com a poluição luminosa, o que favorece a observação dos astros. "Itapetininga tem um céu de interior. Estamos afastados de cidades como Sorocaba, Campinas e São Paulo, que sofrem mais com a poluição luminosa. Aqui ainda conseguimos apreciar boa parte das estrelas e de outros objetos celestes", afirma. Além disso, o professor destaca que a cidade está próxima ao Trópico de Capricórnio, característica que proporciona boas condições para acompanhar diversos fenômenos astronômicos ao longo do ano. "Embora o céu seja o mesmo para todos, existem diferenças de acordo com a latitude. Em regiões próximas aos polos, por exemplo, há épocas em que o sol permanece muito baixo no horizonte ou sequer aparece durante vários dias. Aqui, por estarmos próximos ao Trópico de Capricórnio, conseguimos observar muitos fenômenos em ótimas condições", explica. Lua e Vênus aparecem lado a lado no céu em Itapetininga (SP) Diogo Del Cistia/g1 Além de compartilhar conteúdos nas redes sociais, o clube produz um calendário mensal com os principais fenômenos astronômicos visíveis na região. Atualmente, o material faz parte de um e-book, que é oferecido a quem contribui financeiramente com o projeto, independentemente da quantia. Para elaborar a programação, a equipe consulta anuários publicados por agências espaciais, como a Nasa e a Agência Espacial Europeia (ESA), e utiliza o software gratuito Stellarium para simular a posição dos astros conforme a data, o horário e a localização de Itapetininga. "Nós verificamos se o fenômeno realmente será visível daqui, qual será o melhor horário e a intensidade do brilho. Só depois de confirmar todas essas informações fazemos a divulgação. Muitas vezes os seguidores comentam que observaram exatamente no horário que indicamos, e isso mostra a precisão do nosso trabalho", afirma Rodrigo. Foi dessa forma que o clube divulgou, nas redes sociais, a conjunção entre a lua, Vênus, Júpiter e Mercúrio, fenômeno observado em 17 de junho, que chamou a atenção de pessoas em todo o Brasil. Lua, Vênus, Júpiter e Mercúrio foram vistos bem próximos no céu em 17 de junho Centauri/Divulgação Investimento na ciência Apesar do crescimento do interesse pela astronomia, Rodrigo avalia que o interior paulista ainda carece de investimentos em infraestrutura científica. Segundo ele, existem iniciativas voltadas à divulgação da ciência, mas poucos equipamentos destinados à pesquisa. "Em Sorocaba existe um observatório didático, voltado à popularização da astronomia, mas não é um observatório profissional. O mais próximo da nossa região é o Observatório Abrahão de Moraes, da USP, em Valinhos, que conta com equipamentos de alta precisão." LEIA TAMBÉM: VÍDEO: motorista registra meteoro ‘caindo’ no interior de SP; ‘Brilha mais que qualquer estrela’, diz especialista Membros de clube de astronomia do interior de SP são reconhecidos com certificado da Nasa Físico que 'coleciona' registros de meteoros fala sobre relação do fenômeno com asteroides e dá dicas de observação O professor explica que a construção e a manutenção de um observatório profissional exigem investimentos elevados, além de equipes especializadas para operar os equipamentos. "Os telescópios que utilizamos no clube são considerados de entrada e custam, em média, R$ 10 mil. Um observatório profissional envolve equipamentos muito mais sofisticados, infraestrutura e mão de obra especializada. O investimento chega à casa dos milhões de reais." Na avaliação de Rodrigo, antes de ampliar o número de observatórios científicos, é importante investir em espaços voltados à educação e à formação de novos pesquisadores. "Precisamos incentivar as crianças e os jovens a seguirem carreiras científicas. Também é importante mostrar que a ciência é um espaço para as meninas e mulheres. A pesquisa de base é o que torna possível o avanço da engenharia e da tecnologia." Centauri realiza anualmente um torneio foguetes para estudantes. Os foguetes são feitos com garrafas PET Divulgação/Clube Centauri 'Laboratório é o céu' Para o professor, a astronomia desperta o interesse das pessoas justamente porque permite que qualquer um participe da observação do céu. "O mais legal da astronomia é que o laboratório é o céu. Então você olha para cima, em um dia em que as estrelas estão ali todas cintilando, você já pode, de alguma forma, contribuir com a ciência. Seja tirando uma foto, seja observando um registro e relatando por escrito", destaca o físico. Ele aponta ainda que a possibilidade de qualquer pessoa identificar corpos celestes, mesmo sem conhecimentos aprofundados em astronomia, é um dos aspectos mais gratificantes do projeto. "Você pode usar a câmera do celular para fotografar o céu e saber que está vendo a lua, Júpiter ou Mercúrio. É algo sensacional reconhecer o que está observando. Vejo esse trabalho como uma extensão da minha carreira como professor. Não ensinamos apenas a teoria, mas também despertamos a curiosidade e, quem sabe, inspiramos novas carreiras", finaliza. Asteroid Day Para celebrar o Asteroid Day (Dia Internacional dos Asteroides), comemorado em 30 de junho, o Clube de Astronomia Centauri promoverá, em 1º de julho, um evento gratuito e aberto ao público no Instituto Federal de São Paulo (IFSP) – Campus Itapetininga, localizado na Avenida João Olímpio de Oliveira, 1.561, na Vila Asem. A programação terá como tema central a defesa planetária, área da ciência dedicada à detecção, ao monitoramento e ao estudo de asteroides e outros corpos celestes que podem se aproximar da Terra. Os participantes também poderão conhecer mais sobre os centauros, objetos do Sistema Solar que apresentam características tanto de asteroides quanto de cometas e orbitam entre Júpiter e Netuno. O evento começa às 18h, com uma palestra ministrada pelo professor Rodrigo Raffa. A partir das 20h, o público poderá participar de uma sessão de observação do céu, caso as condições climáticas estejam favoráveis. Evento em celebração ao Dia Internacional dos Asteroides vai debater defesa planetária com palestra ministrada pelo professor de física Rodrigo Raffa Nasa/Divulgação Initial plugin text Veja mais notícias no g1 Itapetininga e Região VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM

FONTE: https://g1.globo.com/sp/itapetininga-regiao/noticia/2026/06/27/professor-transforma-paixao-pela-astronomia-em-clube-virtual-no-interior-de-sp-o-laboratorio-e-o-ceu.ghtml


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