'Se não incluir os meninos, a gente não muda o jogo': por lei, escolas têm que combater machismo para prevenir violência contra mulheres
Prevenção da violência contra a mulher deve fazer parte do currículo escolar, por lei
A prevenção da violência contra a mulher deve começar antes da primeira agressão — e a escola é apontada por especialistas como um dos principais lugares para isso. Desde 2021, uma lei determina a inclusão de conteúdos sobre o tema nos currículos da educação básica.
Pelo país, projetos tentam transformar essa obrigação em conversas com estudantes, professores e famílias sobre machismo, masculinidade e relações entre homens e mulheres, como mostrou o terceiro e último episódio da série especial do Jornal Hoje sobre os 20 anos da Lei Maria da Penha, completados nesta sexta-feira (7).
MAIS SOBRE A SÉRIE DO JH:
Nos 20 anos da lei, Brasil tem recorde de medidas protetivas
Órfãos do feminicídio tentam reconstruir a vida: 'Muita saudade'
Uma das iniciativas parte de uma premissa: não é possível prevenir a violência contra as mulheres sem conversar também com os meninos.
"Se os homens são os que criam o problema, eles têm que ser parte da solução, e parte importante da solução. [...] Se não incluir os meninos, se não incluir os rapazes, se não incluir os homens, a gente não muda o jogo", afirma Luciano Ramos, do Instituto Mapear.
📱Baixe o app do g1 para ver notícias do RJ em tempo real e de graça
'Até quando?' Saiba como pedir socorro em casos de violência doméstica
Prevenção está prevista em lei
A preocupação com a educação está presente desde a criação da Lei Maria da Penha, em 2006. A legislação prevê a realização de campanhas educativas de prevenção da violência doméstica e familiar contra a mulher voltadas ao público escolar e à sociedade em geral.
Em 2021, outra lei alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e tornou obrigatória a inclusão de conteúdo sobre prevenção da violência contra a mulher nos currículos da educação básica. A legislação também instituiu a Semana Escolar de Combate à Violência contra a Mulher.
O Ministério da Educação informou que cabe às redes de ensino definir como o conteúdo será incluído no currículo, enquanto o MEC é responsável por normatizar, coordenar e oferecer apoio técnico às ações.
20 ANOS DA MARIA DA PENHA:
Por dentro dos grupos reflexivos para autores de violência de gênero
Pensão a órfãos de feminicídio; veja as regras e como pedir
Saiba como identificar e denunciar violência doméstica
A pasta informou ainda que uma portaria conjunta com o Ministério das Mulheres, publicada em março deste ano, criou o curso Maria da Penha de Educação em Direitos Humanos nas Escolas, voltado à formação de professores para desenvolver ações de enfrentamento à violência contra as mulheres.
Questionada sobre se o país perdeu tempo ao não avançar mais na prevenção dentro das escolas ao longo dessas duas décadas, a vítima de violência que inspirou e deu nome à lei, Maria da Penha foi direta: "Perdemos. Perdemos."
'Precisamos falar com os meninos'
Em Aracaju, o Instituto Mapear promove rodas de conversa para discutir masculinidade com meninos e homens. A proposta é estimular a reflexão sobre comportamentos aprendidos e desconstruir padrões associados ao machismo.
Para Luciano Ramos, trabalhar com os jovens em grupo é fundamental porque é justamente nessa convivência que muitos comportamentos são reforçados — e também podem ser modificados.
O estudante Felipe Anthony diz perceber esse efeito entre os próprios jovens.
"Assim como o machismo em grupo pode vir a levar uma pessoa que teria um pensamento bom a se tornar alguém machista, um pensamento antimachista em grupo também pode levar alguém machista a perder o seu pensamento machista", afirma.
A percepção é compartilhada pelas meninas. Júlia Guiel, de 14 anos, estudante de uma escola pública do Rio de Janeiro, diz que ainda existe entre alguns adolescentes a associação entre masculinidade e comportamentos agressivos.
"Acho que os meninos têm muito uma coisa que isso é ser homem, que ser mais agressivo, grosso, bruto, de alguma forma, é ser homem", conta. Segundo ela, alguns acabam reproduzindo esses comportamentos pela pressão dos amigos.
Redes sociais e misoginia
No Rio de Janeiro, o Tribunal de Justiça criou o projeto Rio Lilás para levar às escolas informações sobre violência de gênero.
A juíza Katylene Collyer, titular do Juizado de Violência Doméstica de Barra do Piraí, alerta que o trabalho dentro das escolas hoje enfrenta um desafio adicional: a influência das redes sociais sobre crianças e adolescentes.
Segundo ela, jovens são expostos a influenciadores que reproduzem estereótipos machistas e modelos de comportamento que podem reforçar a desigualdade entre homens e mulheres.
Um levantamento da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) identificou 123 canais com discursos de misoginia em uma única plataforma da internet. Juntos, eles somam mais de 23 milhões de seguidores.
Outro levantamento, feito pelo g1, identificou a presença do termo misoginia em mais de 2 mil processos em tribunais brasileiros desde 2015, em casos que envolvem violência doméstica, assédio moral e ofensas no ambiente de trabalho, entre outras situações.
Misoginia é citada em mais de 2 mil decisões judiciais no Brasil desde 2015
Mudança começa cedo
Para especialistas ouvidos pelo Jornal Hoje, trabalhar apenas com os alunos não é suficiente. Professores e outros profissionais da educação também precisam estar preparados para identificar comportamentos e provocar discussões que possam se multiplicar dentro e fora da escola.
O psicólogo Daniel Lima, especialista em gênero e masculinidades e pai de três meninos, defende que antecipar esse debate pode impedir que a violência chegue a acontecer.
"Se a gente começa mais cedo, se a gente começa na escola, a gente pode fazer com que essa violência nem aconteça. E aí é que é o grande salto", afirma.
Para os educadores ouvidos na reportagem, o objetivo não é apenas ensinar os meninos a respeitar meninas e mulheres, mas também questionar um modelo de masculinidade que cobra deles agressividade, força permanente e dificuldade para demonstrar sentimentos.
"Eu gostaria de ver que os meninos ouvissem mais, que falassem mais, que demonstrassem mais emoções e mais afeto, porque emoções e afeto não têm a ver com as questões da sexualidade. Emoções e afetos fazem parte da humanidade", afirma o educador Hudson Santos.
🟩O g1 Rio está no GloboPop, o novo aplicativo de vídeos curtos verticais da Globo, disponível gratuitamente no seu celular. Lá no app, você pode seguir o palco do g1 Rio para não perder nenhum detalhe. Baixe o GloboPop.FONTE: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2026/08/07/prevencao-da-violencia-contra-a-mulher-deve-fazer-parte-do-curriculo-escolar-por-lei.ghtml