Secretário de São Caetano chama inclusão de 'problema' e diz que 'não consegue' trabalhar com pessoas com deficiência

  • 06/05/2026
(Foto: Reprodução)
O secretário municipal de Esporte, Lazer e Juventude de São Caetano do Sul, Mauro Roberto Chekin Reprodução/YouTube O secretário municipal de Esporte, Lazer e Juventude de São Caetano do Sul, Mauro Roberto Chekin, chamou a inclusão de pessoas com deficiência no esporte de “problema” e afirmou que “não consegue” trabalhar com esse público durante uma audiência pública na Câmara Municipal nesta quarta-feira (29). As declarações provocaram reações do Ministério do Esporte e do Comitê Paralímpico Brasileiro, que classificaram as falas como capacitistas e discriminatórias. As afirmações ocorreram após questionamento da vereadora Bruna Biondi (PSOL), que participava da sessão. Ao comentar políticas de inclusão, Chekin afirmou: “Com relação ao autista, nós temos um problema muito grande com autista e qualquer [pessoa com deficiência]”. Durante a fala, o secretário relatou o caso de uma mãe que teria procurado a prefeitura para incluir a filha em aulas de natação. “Veio uma mãe que quis uma inclusão com a filha dela para ela ser incluída na aula de natação. [...] A menina usa fralda. Como é que eu posso pôr a menina dentro da água de fralda? [...] nós temos que orientar a mãe a comprar essa fralda de natação”, disse. Chekin afirmou ainda que, no início da aula, a menina teria se incomodado com o barulho e “tapado os ouvidos”, e declarou que nem todos os profissionais são capacitados para atuar com inclusão. “Hoje, com esse problema da inclusão social, que eu acho importante, acho que tem que ser feita, mas nós temos que tomar muito cuidado com os esportes”, afirmou. Em seguida, o secretário relatou uma experiência pessoal durante a faculdade de educação física e disse que não "conseguiria" atuar na área. “Eu entrei na piscina, saí da piscina e falei: 'Se for para trabalhar desse jeito, não quero nunca mais voltar aqui'. A minha condição psicológica e física é muito frágil para esse tipo de coisa”, declarou. Chekin também afirmou: “A inclusão é um dever do Estado, mas não é um dever meu, pessoa física. Eu não posso chegar e obrigar um profissional e falar assim: 'Você vai trabalhar lá'”. A vereadora Bruna Biondi rebateu a declaração do secretário. “É a mesma coisa de a gente falar que a educação não tem que garantir a inclusão de crianças com deficiência na rede municipal ou que um professor que não quiser dar aula para uma criança com deficiência pode simplesmente não dar. É parte da profissão, é parte da formação profissional, é parte do dever se aquele funcionário trabalha para o Estado. Ele não tem opção. Nem mesmo se trabalhasse num setor privado. É discriminação." Em nota, o Ministério do Esporte repudiou “com veemência” as declarações, classificadas pela pasta como “profundamente capacitistas”. “O esporte brasileiro deve ser espaço de inclusão, diversidade, respeito e dignidade para todos”, afirmou a pasta, que informou ainda que fará contato institucional com a Prefeitura de São Caetano do Sul para oferecer orientações técnicas e materiais voltados à inclusão (veja a nota completa abaixo). O Comitê Paralímpico Brasileiro também divulgou nota de repúdio e classificou as falas como “discriminatórias e inadmissíveis”. “A inclusão é um direito e um compromisso constitucional e civilizatório que deve ser defendido e promovido por todos os agentes públicos”, afirmou o comitê. E também ressaltou o fato de o município do ABC Paulista ser conhecido por ter sido um polo de treinamento de atletas paralímpicos. "Destaca-se ainda que a cidade de São Caetano do Sul tem a sua história vinculada ao Movimento Paralímpico nacional. O munícipio já foi um dos polos de treinamentos das Seleções Brasileiras de atletismo e natação paralímpicos antes da construção do Centro de Treinamento Paralímpico Brasileiro, na capital paulista, além de se manter como moradia de diversos atletas paralímpicos da atualidade. (leia a íntegra abaixo)" Em nota, a Prefeitura de São Caetano do Sul afirmou que possui “compromisso histórico” com políticas públicas de inclusão e destacou investimentos em programas voltados às pessoas com deficiência nas áreas de saúde, educação, esporte e assistência social. A administração municipal citou a inauguração do Complexo Unificado de Inclusão, Desenvolvimento, Apoio e Reabilitação (Cuidar), realizada em 25 de abril, além de ações desenvolvidas pelo Núcleo de Apoio à Educação Inclusiva (NAEI) e parcerias com instituições como APAE, AACD, Semeador e o próprio Comitê Paralímpico Brasileiro. A prefeitura afirmou ainda que “a pauta da inclusão exige evolução constante” e declarou que “erros, apesar de imperdoáveis, são compreensíveis, dada a complexidade e importância desta pauta” (veja a íntegra abaixo). O que diz o ministério "O Ministério do Esporte repudia com veemência as declarações do secretário de Esporte de São Caetano do Sul, por seu caráter profundamente capacitista, incompatível com os princípios constitucionais da dignidade da pessoa humana, da inclusão e do respeito às pessoas com deficiência. É dever do poder público garantir acesso, acolhimento, oportunidades e participação plena das pessoas com deficiência em todas as dimensões da vida social, inclusive no esporte, instrumento reconhecido de cidadania, desenvolvimento humano e inclusão social. O Brasil possui uma das legislações mais avançadas do mundo na proteção dos direitos das pessoas com deficiência, assegurados pela Constituição Federal, pela Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e pela Lei Brasileira de Inclusão. Nenhuma autoridade pública pode se afastar desses princípios ou contribuir para a reprodução de preconceitos e estigmas. O Ministério do Esporte reafirma seu compromisso com a promoção do esporte inclusivo, do paradesporto e de políticas públicas que garantam respeito, autonomia e oportunidades para todas as pessoas. Diante do ocorrido, o Ministério - por meio da Secretaria Nacional de Paradesporto - fará contato institucional com a Prefeitura de São Caetano do Sul, colocando à disposição materiais informativos, orientações técnicas e acesso aos programas federais voltados à inclusão e à promoção dos direitos das pessoas com deficiência, entendendo que a informação e a conscientização também são instrumentos fundamentais para o combate ao capacitismo. O esporte brasileiro deve ser espaço de inclusão, diversidade, respeito e dignidade para todos." O que diz o Comitê Paralímpico "O Comitê Paralímpico Brasileiro manifesta seu mais veemente repúdio às declarações proferidas pelo secretário municipal de Esporte, Lazer e Juventude de São Caetano do Sul, senhor Mauro Checkin, durante audiência pública realizada em 29 de abril de 2026, na Câmara dos Vereadores de São Caetano do Sul, nas quais se referiu à inclusão pelo esporte como um “problema”. A fala é discriminatória e inadmissível, revela desconhecimento sobre o papel transformador do esporte na promoção da cidadania, da dignidade e da igualdade de oportunidades para pessoas com deficiência. A inclusão é um direito e um compromisso constitucional e civilizatório que deve ser defendido e promovido por todos os agentes públicos. Destaca-se ainda que a cidade de São Caetano do Sul tem a sua história vinculada ao Movimento Paralímpico nacional. O munícipio já foi um dos polos de treinamentos das Seleções Brasileiras de atletismo e natação paralímpicos antes da construção do Centro de Treinamento Paralímpico Brasileiro, na capital paulista, além de se manter como moradia de diversos atletas paralímpicos da atualidade. Firmou ainda recentemente uma parceira com o próprio Comitê Paralímpico Brasileiro, por meio da sua área de Educação Paralímpica, para capacitação de professores de Educação Física da rede escolar municipal. O esporte paralímpico brasileiro é hoje referência mundial pelos resultados esportivos bem como pelo impacto social que gera diariamente em milhares de vidas em todo o país. Tratar a inclusão como obstáculo desconsidera avanços históricos construídos com esforço coletivo e desrespeita atletas, profissionais e toda a comunidade de pessoas com deficiência. Espera-se de gestores públicos responsabilidade, preparo e compromisso com políticas que ampliem o acesso e não que reforcem preconceitos ou retrocessos. Declarações dessa natureza não contribuem para o debate público e tampouco refletem os valores que devem nortear a gestão do esporte no Brasil. O Comitê Paralímpico Brasileiro reafirma seu compromisso inegociável com a inclusão, com o desenvolvimento humano por meio do esporte e com a construção de uma sociedade mais justa, acessível e igualitária." O que diz a Prefeitura de São Caetano do Sul "A Prefeitura de São Caetano do Sul possui um compromisso histórico com as políticas públicas de inclusão e com a promoção dos direitos das pessoas com deficiência, pauta tratada de forma prioritária pela administração municipal em diferentes áreas, como saúde, educação, esporte e assistência social. O município mantém investimentos contínuos em estruturas, programas e parcerias voltadas à inclusão, sendo a primeira cidade do Grande ABC a contar com uma Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência ou com Mobilidade Reduzida. No último dia 25 de abril, a Prefeitura inaugurou o Cuidar (Complexo Unificado de Inclusão, Desenvolvimento, Apoio e Reabilitação), complexo moderno e especializado voltado ao atendimento de pessoas com deficiência e em processo de reabilitação, ampliando a rede municipal de acolhimento e assistência especializada, além de qualificar o atendimento. São Caetano também desenvolve ações permanentes de inclusão na rede municipal de ensino, por meio do NAEI (Núcleo de Apoio à Educação Inclusiva), além de manter e ampliar parcerias com instituições de referência, como APAE, AACD, Semeador e Comitê Paralímpico Brasileiro, fortalecendo políticas públicas voltadas à acessibilidade, autonomia e qualidade de vida. A administração municipal entende que a pauta da inclusão exige evolução constante, inclusive na superação de conceitos historicamente arraigados na sociedade. Os avanços conquistados nos últimos anos são inegáveis, mas o desafio continua permanente e coletivo. Neste processo, erros, apesar de imperdoáveis, são compreensíveis, dada a complexidade e importância desta pauta. A Prefeitura seguirá investindo fortemente em ações, programas e políticas públicas que promovam respeito, inclusão, acolhimento e garantia de direitos às pessoas com deficiência, fortalecendo uma cidade cada vez mais acessível e inclusiva para todos."

FONTE: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/05/06/secretario-de-sao-caetano-chama-inclusao-de-problema-e-diz-que-nao-consegue-trabalhar-com-pessoas-com-deficiencia.ghtml


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