'Sempre essa angústia': veja quais os primeiros bairros a serem atingidos na capital após transbordo do Rio Acre
31/01/2026
(Foto: Reprodução) Rio Acre transborda pela terceira vez em menos de dois meses na capital
Pela segunda vez em menos de um mês, pela terceira em menos de dois meses e pela quarta em menos de um ano, o Rio Acre voltou a transbordar em Rio Branco no último dia 29 de janeiro e já provoca impactos diretos nos bairros mais baixos da capital ao alcançar 15,09 metros às 12h deste sábado (31) e afetar cerca de 5 mil pessoas, direta ou indiretamente.
De acordo com o tenente-coronel Cláudio Falcão, coordenador da Defesa Civil de Rio Branco, há dez bairros considerados prioritários a partir do momento em que o manancial transborda, ou seja, quando atinge o alerta máximo de 14 metros.
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⚠️ Entre eles estão: Ayrton Senna, Base, Seis de Agosto, Cidade Nova, Cadeia Velha, Baixada da Habitasa, Triângulo, Palheiral, Taquari e Aeroporto Velho. Essas regiões são, historicamente, as primeiras a sofrer com a elevação do nível do rio.
Ainda segundo Falcão, quando o Rio Acre ultrapassa a marca de 14,50 metros e se aproxima dos 15 metros, cenário deste sábado (31), a tendência é que o número de áreas afetadas cresça rapidamente.
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Júnior Andrade/Rede Amazônica
⚠️Caso o nível passe de 15,50 metros, o cenário se agrava ainda mais, podendo alcançar até 68 bairros da capital.
Confira abaixo o histórico de transbordo do principal manancial do estado nas quatro últimas enchentes registradas entre março de 2025 e janeiro deste ano:
O primeiro transbordamento ocorreu em 10 de março de 2025, quando o nível chegou a 14,13 metros naquele dia. A maior medição daquele período foi de 15,88 metros, em 17 de março, quando atingiu mais de 30 mil pessoas;
O segundo ocorreu em 27 de dezembro do mesmo ano, quando o rio subiu cerca de quatro metros em menos de 24 horas e alcançou 14,03 metros. O nível chegou a 15,41 metros em 29 de dezembro e atingiu mais de 20 mil pessoas;
O terceiro foi em 16 de janeiro, com o manancial marcando 14,01 metros na medição das 15h. O nível máximo foi de 14,71 metros e atingiu mais de 2 mil pessoas em 27 bairros e 15 comunidades rurais.
A quarta vez ocorreu na última quinta-feira (29), quando o manancial marcou 14 metros na medição das 18h e transbordou pela terceira vez em menos de dois meses e pela quarta em menos de um ano.
Histórico de transbordo do Rio Acre das quatro últimas cheias
Rio Acre está perto da cota de transbordo e Defesa Civil prepara abrigos
Medo e incerteza
No bairro Triângulo, um dos primeiros a ser atingido, moradores relatam medo, prejuízos e a repetição de um drama que se intensifica a cada novo inverno amazônico. O autônomo Rosimar Lopes Martins contou que cresceu na região e já perdeu as contas de quantas vezes precisou deixar a casa por causa da enchente.
"Eu nasci, me criei aqui, sempre teve esse problema de água. Sempre a gente vai para um abrigo, parque de exposição, colégio. É sempre essa angústia que a gente passa todos os anos [...] eu saí daqui, voltei de novo, mas peguei a primeira, a segunda e a terceira cheia. Já estamos quase acostumados", disse.
Rosimar Lopes Martins, morador do bairro Triângulo, relatou dificuldades nas três ultimas enchentes em Rio Branco
Júnior Andrade/Rede Amazônica
A dona de casa Antônia Ferreira Lopes decidiu que não vai esperar a situação piorar e já se mobiliza para retirar os móveis de casa.
"Agora nessa daqui nós vamos sair, porque do jeito que está enchendo, hoje de manhã [sábado, 31] estava tudo seco. Medo de dormir por causa de cobra e inseto que podem entrar para dentro de casa. Aí fica difícil [...] se começar a subir mais, eu vou sair. Vou para a casa da minha filha. Já estou tirando os móveis. A gente acaba gastando o que não tem", relatou.
Antônia Ferreira Lopes, moradora do bairro Triângulo, decidiu arrumar os móveis para sair de casa antes que as águas do Rio Acre entrem dentro de casa
Júnior Andrade/Rede Amazônica
Com o transbordamento, a Defesa Civil coloca em prática o plano de contingência, que prevê ações de resgate, retirada de famílias, acolhimento em abrigos, distribuição de alimentação, atendimento de saúde, segurança e cuidado com animais.
Atualmente, 13 famílias estão abrigadas no Parque de Exposições Wildy Viana, onde há 74 boxes montados, mas a estrutura pode ser ampliada rapidamente.
"Nós temos capacidade de montar mais 50 boxes em até 12 horas. Se houver aumento da demanda, conseguimos ampliar de forma muito rápida", afirmou o coordenador.
Famílias começam a ser levadas ao Parque de Exposições em Rio Branco neste sábado (31)
Júnior Andrade/Rede Amazônica
A família da Werynica Cássia foi levada do bairro Adalberto Aragãi ao Parque de Exposições neste sábado (31) e disse que não desarrumou as coisas que havia encaixotado da última cheia, justamente pelo receio de uma nova alagação.
"As roupas eu não tirei das caixas, eu estava esperando que viesse outra alagação e a gente teria que sair novamente, né?! Porque afinal de contas, onde eu moro, alaga. E o difícil é que quando a água vem do igarapé, é muito rápido, não dá tempo de tirar as coisas", complementou.
Werynica Cássia foi levada do bairro Adalberto Aragão ao Parque de Exposições neste sábado (31)
Júnior Andrade/Rede Amazônica
Situação deste sábado (31)
Segundo a Defesa Civil, mais de cinco mil pessoas já são afetadas pela enchente na zona urbana de Rio Branco. Na área rural, a estimativa é de cerca de mil pessoas impactadas.
No Parque de Exposições, há 13 famílias situação de desabrigo, totalizando 39 pessoas e 14 animais. O g1 não conseguiu atualizar a quantidade de desalojados até a última atualização desta reportagem.
O nível do rio subiu 50 centímetros em apenas 24 horas em comparação com a última sexta-feira (30) quando, no mesmo horário, a medição era de 14,49 metros.
As autoridades seguem monitorando o comportamento do Rio Acre e orientam que moradores das áreas de risco fiquem atentos aos alertas oficiais e procurem ajuda ao menor sinal de necessidade de retirada.
Bairro Triângulo, um dos primeiros a serem atingidos pela enchente do Rio Acre em Rio Branco
Júnior Andrade/Rede Amazônica
De acordo com o monitoramento oficial, o manancial está acima da cota de atenção desde o dia 11 de janeiro, quando marcou 10,44 metros e ultrapassou a marca pela 4ª vez em 1 mês após chuvas intensas na capital que causaram o transbordamento do Rio Acre pela segunda vez em menos de 30 dias.
A oscilação no nível do rio é provocada pelo volume elevado de chuvas ao longo do mês. Em janeiro, o acumulado pluviométrico já superou a média histórica esperada e ultrapassou os 570 milímetros na última segunda (26), enquanto a previsão para o mês era de 287,5 milímetros.
Bairro Triângulo, um dos primeiros a serem atingidos pela enchente do Rio Acre em Rio Branco
Júnior Andrade/Rede Amazônica
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